Edson MazzettoGado leiteiro criado empiricamente, perto de Cascavel, não pode competir com o gado argentino. Na piscicultura, dáProdutores rurais brasileiros, especialmente os do Paraná, tentam se inserir plenamente no Mercado Comum do Sul (Mercosul), depois de perderem muito tempo reclamando das dificuldades na disputa por espaços, principalmente na relação com argentinos. Os produtores vão se convencendo de que precisam se adaptar ao mercado e produzir com qualidade cada vez maior, reduzir custos e aumentar a lucratividade através de produtividade maior.
No plano institucional os produtores enfrentam entraves cuja solução depende dos governos centrais; por isso passam a se incorporar às discussões como as organizadas pelo Fórum Permanente Regional de Prefeitos do Mercosul, que se reuniu em Cascavel no último final de semana. As questões da agropecuária foram analisadas por uma comissão temática, que tratou de problemas enfrentados não apenas pelos produtores do Brasil, mas também da Argentina, Paraguai e Uruguai, os países do bloco.
Contra polarizaçãoO Fórum, que realizou sua primeira reunião no Paraná, foi criado há quatro anos no norte argentino, espalhou-se inicialmente pelo Oeste catarinense e Paraguai, chegou ao Oeste paranaense e pretende integrar também os uruguaios. O organismo procura promover a inserção das regiões interioranas no Mercosul, rompendo a polarização entre grandes capitais, especialmente o eixo São Paulo Buenos Ayres. As discussões são abrangentes, inclusive em campos onde os municípios podem decidir.
Vanderlei Farias AgropecuáriaReunião da comissão temática de agropecuária, no Fórum do Mercosul
Na agropecuária, como as decisões legais no plano econômico competem aos governos centrais, sempre com base no Tratado de Assunção (que deu origem ao Mercosul), cabe aos produtores manifestar posições, na expectativa de que sejam contempladas. Eles mantêm o entendimento de que os interesses do setor não foram considerados como os da indústria, melhor contemplada nas relações devido à mobilização de forças industriais de São Paulo.
A comissão temática de agropecuária, presidida pelo agrônomo Agassiz Linhares, secretário de Desenvolvimento Rural do município de Cascavel, e composta por representantes de produtores, discutiu assuntos como seguro agrícola, irrigação, insumos e equipamentos; crédito, armazenagem, estoques reguladores, eletrificação e sistemas de comercialização. Segundo Linhares, ‘‘tudo isso precisa ser compatibilizado, para haver igualdade entre os produtores dos países integrados.’’
Entraves e soluçõesForam apontados como principais ‘‘entraves burocráticos’’ no Mercosul as legislações aduaneira e fitossanitária, manifestos de carga e certificado de origem de produtos. Além disto, os integrantes da comissão destacaram como problemas, para a circulação de cargas entre os países, a falta de pessoal em aduanas, salas precárias para desembaraço de mercadorias e também filas no transporte de produtos sazonais, que se concentram em grande volume em curtos períodos.
Entre as sugestões apresentadas, a de que as aduanas operem em três turnos de 8 horas no período de grande fluxo de transporte e ainda instalação de aduanas mais distantes da fronteira, para evitar a conturbação comum a estes pontos. Para ordenar a comercialização, é proposta a organização de pequenos produtores em grupo, para que ofereçam maior volume. Segundo Agassiz Linhares, ‘‘a desburocratização sem dúvida facilitará a inserção de todos no mercado’’.
A questão diretamente relacionada à etapa da produção e às condições para competir, é resumida pelo agrônomo Luiz Aguiar de Oliveira, consultor de programas rurais, inclusive de qualidade, e presidente da Associação Comercial e Industrial de Medianeira: os produtores nacionais precisam estar conscientes ‘‘de que há condições favoráveis aqui para determinados produtos, mas em outros dificilmente atingiremos as condições existentes nos países vizinhos’’.
Aguiar cita o caso do trigo ou leite, ‘‘tradicionais dos argentinos, com grande produtividade e custo mais baixo’’, e contrapõe com soja e milho, ‘‘nos quais temos condições de competir’’. O agrônomo salienta que ‘‘produzir empiricamente aqui não adianta’’, lembrando porém que há alternativas - uma delas, a piscicultura, muito desenvolvida por exemplo no Oeste do Paraná, pólo estadual da atividade e que vende de alevinos para a Argentina.
Para o governador da Província de Misiones (Argentina), Federico Ramón Puerta, que participou do Fórum Permanente como convidado, ‘‘preocupações e temores’’ de produtores brasileiros, quanto à competição, ‘‘não são muito diferentes’’ do que ocorre em seu país. Puerta acha que cada lado tem que ‘‘desenvolver suas potencialidades, para complementação entre eles’’, e cita o exemplo do trigo: ‘‘Temos o Pampa Úmido, que favorece a triticultura; é óbvio que nossos triticultores consigam bom desempenho’’.
Exigências de qualidadePuerta concorda com a necessidade de superação de entraves burocráticos, mas observa que ‘‘tudo ocorre paulatinamente’’, lembrando que ‘‘durante dois séculos, criaram-se entraves permanentemente, praticamente fechando-se fronteiras, e em poucos anos de Mercosul conseguimos importantes avanços’’.
Dirigentes de cooperativas de produtores avaliam que a ‘‘exigência da qualidade’’ é um dos aspectos positivos da integração, e deve resultar em maior competitividade. Apesar disto, Fábio Rosso, presidente da Cooperativa Central Regional Iguaçu (Cotriguaçu), de Cascavel, aponta como um dos aspectos ‘‘negativos’’ do Mercosul o fato do Brasil inicialmente ter ‘‘conduzido de forma inadequada as negociações, sob a influência das forças industriais de São Paulo’’
Sebaldo Waclawovsky, diretor-secretário da Cotriguaçu, acrescenta: ‘‘Precisamos ter agilidade, competitividade, reduzir custos e aumentar nossa produtividade, para competir bem’’. Dilvo Grolli, presidente da cooperativa Coopavel, de Cascavel, que mantém negócios com os paraguaios, considera ‘‘preocupante’’ a influência dos produtos argentinos no mercado nacional, mas salienta que cada vez mais a produção brasileira ‘‘precisa ter qualidade para competir’’.
Irineo Rodrigues, presidente da Cotrefal, de Medianeira, observa que os outros países têm custos menores e maior produtividade média, e aqui o excesso de burocracia, tributos elevados, transporte rodoviário e tarifas portuárias caras ‘‘comprometem nossas relações no Mercosul’’. Apesar das ressalvas, concorda com os demais, no sentido de que o Mercosul ‘‘tem o mérito de forçar a agropecuária brasileira a evoluir mais rápido.’’

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