A notícia da venda da Fazenda Rhenânia, em Rolândia, grande marco do ínicio do sistema do plantio direto no País, no final do mês passado, deixou muita gente boquiaberta, cheia de perguntas, mas que, na verdade, se resumiam a uma só: quais as razões que levaram o produtor Herbert Bartz a desistir da produção agrícola?
''Há uma etapa na trajetória da gente em que a qualidade de vida precisa ser assumida como prioridade'', resume. Herbert Bartz, o brasileiro de forte sotaque alemão, transformou sofrimento, dor e fome vividos na Alemanha, país de origem de seus pais, durante a Segunda Guerra, numa relação
muito especial com a terra e a sua capacidade de produção de alimentos. ''Tornei-me um agricultor mais por paixão pela terra do que opção para ganhar dinheiro'', completa.
Problemas de saúde - ele se recupera de uma cirurgia na coluna -, associados às dívidas geradas em um projeto no Mato Grosso, ao descontentamento com a política agrícola e à boa proposta recebida de uma empresa de Arapongas foram determinantes na decisão. ''Vou primeiro buscar minha recuperação, depois vou avaliar o que fazer. Da venda da fazenda vai me sobrar algum dinheiro para comprar uma propriedade menor'', avisa, sem revelar os números da venda.
Bartz não esconde o descontentamento com a falta de apoio do governo brasileiro à produção agrícola. ''O Brasil é o país onde se produz a comida mais barata do mundo. Os produtores, entretanto, vivem cada vez mais endividados''. Para a sociedade, continua, o conceito de agricultura é o de ser a atividade responsável pela maior parcela dos problemas ambientais. ''A evolução do plantio direto sustentável promoveu uma revolução na qualidade da agricultura brasileira. Não se vê mais lavouras com erosão nem os rios lamacentos. Antes essa produção era um sonho não realizável. Hoje, concretiza-se um patamar de conservação e respeito à natureza'', destaca.
O produtor cita ainda como ganho dos 35 anos de plantio direto o aumento na produtividade das lavouras brasileiras, que saltou de 58 milhões de toneladas para 120 mi/t/ano. A essa evolução da tecnologia do plantio direto, Bartz faz questão de frisar o importante papel dos órgãos de pesquisa, como a Embrapa e o Iapar, responsáveis por outros incrementos como a genética e rotação de culturas. Mas o grande mérito é do produtor brasileiro ou do que ele chama de ''biodiversidade mental do brasileiro por não ser aleijado pelos subsídios''. ''O agricultor brasileiro ou é criativo ou não sobrevive'', sentencia.
Essa ''fertilidade mental'' do produtor brasileiro faz também com que o país tenha, na opinião de Herbert Bartz, ''a agricultura mais competitiva do mundo''. ''Somos eficientes da porteira para dentro. Do lado de fora, o mercado até funciona, mas as estradas esburacadas e a política parasita e dominadora barra o fantástico potencial da agricultura brasileira'', afirma. ''Acredito que o governo não tenha consciência do pecado que comete'', ameniza.
As histórias e experiências de Herbert Bartz renderiam um livro, potencialmente um best seller. ''Sinto-me grato de ter tido a chance, no Brasil, de contribuir com a evolução da lavoura. O que fizemos aqui não seria possível realizar nos Estados Unidos ou na Alemanha. No Brasil, com todos os defeitos, ainda se dá liberdade às loucuras'', brinca.
Para o futuro, Herbert Bartz faz a promessa de não se ausentar da agricultura. ''O envolvimento fica. Vou ter mais tempo para fazer o que não podia, desde que me coloquei como 'escravo' da propriedade. Tenho convites para palestras e eventos'', revela. O produtor é um dos convidados de um evento técnico de agricultura, que será realizado em novembro, na Alemanha. O assunto não podia ser outro: o plantio direto.
Os novos donos da Fazenda Rhenânia comprometeram-se a manter o museu montado por Bartz que tem como peça principal a plantadeira trazida dos Estados Unidos. Há ainda o compromisso nas ações de proteção ambiental, como a ampliação nas áreas de reserva legal e mata ciliar.

mockup