Deriva - Gotas fora do alvo
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sábado, 13 de novembro de 2004
Célia Guerra<br> Reportagem Local 
O produtor Luiz Antonio Pagoti, de Nova América da Colina (32 km ao sul de Cornélio Procópio), foi a mais nova vítima da deriva no Norte do Estado. Na semana passada parte de sua lavoura de uvas foi atingida por resíduos de herbicida. O produto teria sido aplicado durante a manhã numa propriedade vizinha e, no final da tarde, as uvas da parreira de Pagoti já apresentavam sinais da contaminação: cachos cozidos. Com os danos ele estima uma perda de 3 mil quilos dos 17 mil quilos de uvas que esperava colher.
Os prejuízos, infelizmente não param por aí. Dos cachos que não se perderam por inteiro, boa parte teve uvas afetadas que devem cair nos próximos dias. ''Os cachos ficam 'banguelas' e perdem a qualidade comercial, o preço de venda será mais baixo'', lamenta.
O dano, segundo o técnico da Emater Lucas Batista Neves, que dá assistência ao produtor, terá reflexos também na próxima safra, pois o produto promoveu também atrofia da planta. ''Os galhos saem pequenos diminuindo, assim, o vigor e a produtividade da parreira'', explica.
A deriva como explica a engenheira agrônoma Ernestina Muraoka, da Emater de Uraí, especialista em fruticultura, é o desvio da trajetória das gotas produzidas na pulverização, para fora do alvo que se pretende atingir. A área atingida pode ser outra lavoura, cursos d'água ou qualquer vegetação próxima do local de aplicação. Os problemas acontecem quando este movimento atinge uma lavoura sensível ao produto aplicado, como a uva e o tomate.
Os herbicidas produzidos à base de 2,4-D são os que mais provocam danos pois o efeito é imediato, as folhas ficam enrugadas. Na parreira de Pagoti, pelas características dos danos, o vilão não foi o produto. A lavoura foi avaliada não só pelos técnicos da Emater, mas também pelos engenheiros agrônomos Adir Pessoa, responsável pelo projeto de uvas da propriedade, e Samuel Premebides, da Dow AgroSciences, uma das empresas que produz herbicidas à base de 2,4-D. Além das características da parreira serem diferentes dos danos do produto, outras plantas da propriedade, que também são suscetíveis ao herbicida, não foram afetadas.
Os técnicos admitem que apesar dos danos, é muito difícil identificar tanto a procedência quanto o produto que o provocou. Primeiro, porque as ''nuvens'' de deriva podem percorrer longas distâncias. Depois, a quantidade do veneno que afeta as lavouras, apesar do prejuízo que provoca, é muito pequena para ser identificada por exames laboratoriais. ''Vamos mais pela experiência'', afirmam. O técnico da multinacional colheu diversas amostras da parreira para que pudesse avaliar melhor os danos.
Pagoti está revoltado com a perda ele disse que no dia em que a parreira foi atingida vários vizinhos fizeram aplicações de hebicidas. Mesmo consciente da dificuldade de localizar o responsável ele pretende investigar junto as revendas de agroquímicos e Secretaria de Agricultura quem teria comprado produtos com os princípios que poderiam ter danificado sua lavoura. ''Quero buscar justiça com provas'', afirma.
A ocorrência na lavoura de Pagoti promoveu a solidariedade de vários produtores da região que já sofreram o problema em safras anteriores. Natanael Rafael dos Santos perdeu, no ano passado, 50% de sua produção de uvas. Ele conta que os período de dessecação das lavouras de soja e trigo ''tiram o sono'' dos fruticultores.
Cláudio Alves perdeu cinco mil pés de tomates também no ano passado, afetados por 2,4-D. Na época ele acionou a Seab, descobriu o técnico responsável pelo receituário e o produtor, mas preferiu não entrar na justiça. ''Falta consciência dos vizinhos, eles não se preocupam com a lavoura dos outros'', reclama.
O município de Nova América da Colina, segundo o técnico da Emater, Lucas Neves, possui 358 propriedades agrícolas. Desse total, 70% são pequenas propriedades e 30% delas voltadas à agricultura familiar.
Luiz Pagoti lembra que, para proteger a agricultura diversificada, que caracteriza o município, existe uma lei municipal que proíbe o uso do 2,4-D. A lei, entretanto, fica sem valor por existirem registros em instâncias superiores (estadual e federal) que permitem o uso. ''Nós (pequenos produtores) somos os responsáveis pela maioria dos empregos gerados na cidade'', atesta.


