Deral projeta safra de feijão 31% menor em extensão
Redução da área é reflexo direto dos menores preços praticados durante a safra anterior
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de abril de 2026
Redução da área é reflexo direto dos menores preços praticados durante a safra anterior
Lucas Catanho - Especial para a FOLHA 

A segunda safra de feijão no Paraná deverá ocupar uma área 31% inferior com um volume 20% menor em comparação à mesma safra anterior. A projeção foi feita pelo Deral (Departamento de Economia Rural), órgão ligado à Seab (Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento).
Carlos Hugo Godinho, agrônomo do Deral, considera que a redução da área é um reflexo direto dos menores preços praticados durante a safra anterior.
“Houve uma redução importante dos preços depois de colhida uma safra muito volumosa em 2025, especialmente de feijão preto. No ano anterior, 2024, tivemos uma safra recorde, porém houve um escoamento via exportações mais fluido, diferentemente do que se verificou em 2025 com uma parte maior do produto ficando disponível no mercado interno e pressionando os preços”, analisa.
A projeção feita pelo Deral em março aponta 434,1 mil toneladas cultivadas em 239,2 mil hectares de terras.
“Porém, esses números foram captados antes de a seca se agravar, então é bem improvável que confirmemos esse volume, que já deve vir diminuído no relatório de abril”, projeta.
O status atual das lavouras de feijão no estado é: 69% em boas condições, 22% em condições medianas e 9% em situação ruim.
PRODUTIVIDADE
Com relação à produtividade média desta safra, até o último levantamento (março) estava 15% superior – 1.815 kg/hectare ante 1.573 kg obtidos na safra anterior. “Mas as condições atuais já não sustentam essa previsão, que pode ficar mais parecida com a anterior nos levantamentos futuros.”
Segundo o técnico, em março, o feijão-preto acumulou alta de 7% nos últimos 12 meses, enquanto o carioca registrou valorização de 48%. “O aumento da oferta do primeiro em 2024 e em 2025 em contraste com a redução do carioca”, explica o técnico.
Ainda assim, o feijão-preto segue predominante em território paranaense, ocupando 2/3 da área total plantada no estado nesta segunda safra.
DESAFIOS
Godinho explica que o feijão é uma cultura de maior risco se comparada a soja ou ao milho, tanto em termos de produtividade quanto de mercado.
“Enquanto a soja e o milho têm uma demanda que se amplia ano a ano, o feijão tem sua demanda diminuindo nos últimos anos, dadas as mudanças de comportamento dos consumidores.”
Outro problema são as exigências de qualidade, mais específicas que das commodities alternativas, fazendo com que o produtor tenha descontos sobre o preço recebido.
“Por fim, o ciclo curto da cultura faz com que qualquer alteração climática impacte na produtividade da planta, muitas vezes gerando prejuízos mesmo em momentos de preços bons”, completa.
A segunda safra de feijão é plantada no Paraná no primeiro trimestre e colhida no segundo, majoritariamente. A colheita acabou de ter início e atingiu 1% do total. “A maioria das lavouras está em enchimento de grãos atualmente”, conclui.
CURTO
Com propriedade em Londrina, Manoel do Carmo Chimenes tem hoje 16 alqueires de feijão cultivados em sua propriedade, principalmente da variedade preto. A opção pela cultura foi principalmente o fato de o feijão ter o ciclo curto.
No ano passado, o agricultor colheu 120 toneladas de feijão. “Neste ano o plantio está novo por enquanto, ainda não dá para ter ideia de como vai ser, vai depender do clima.”
Chimenes considera que o mercado para o feijão atual está “cruel”. O preço da saca está entre R$ 140 e R$ 150, bem desvalorizado. Por esse motivo, há muito feijão em estoque aguardando comercialização. “Hoje está bem complicado. Para ter uma ideia, em 2024 vendi a saca a R$ 350”, compara.
Para obter o máximo em qualidade e produtividade, Chimenes cita a adubação e um terreno bem corrigido. Essas práticas estão garantindo uma produtividade de até 120 sacas por alqueire.
“Hoje o feijão não é viável mais, infelizmente uma hora o pessoal não vai conseguir plantar mais. Se vendermos a saca a menos que R$ 200, inviabiliza”, conclui o agricultor, que comercializa o feijão para cerealistas.
PRODUÇÃO
Relatório do Deral mostra que Clevelândia, município a sudoeste do estado, foi o maior produtor de feijão 2ª safra em 2024, com participação estadual de 4,6%. A cultura foi cultivada em 15 mil hectares de terras, resultando em 31,5 mil toneladas e um VBP (Valor Bruto de Produção) de R$ 102,9 milhões.
O relatório mostra ainda que o feijão 2ª safra foi cultivado em 224 municípios do estado nesse mesmo ano. O VBP da cultura no Paraná alcançou R$ 2,2 bilhões.


