Os agricultores paranaenses iniciaram 1999 sem motivos para euforia. Essa é a avaliação do presidente da Sociedade Rural do Paraná (SRP), Francisco Galli. Para ele, a crise enfrentada pelos produtores em 1998 vai se refletir neste ano. ‘‘Acredito até que a situação vai-se agravar’’, diz. A falta de crédito e os baixos preços pagos aos produtos agropecuários são os principais causadores do desestímulo na categoria.
‘‘Na realidade, tudo isso está inserido em um contexto político: a agricultura está sendo relegada a último plano pelos governos brasileiro e paranaense’’, afirma. Segundo Galli, são vários os fatores que demonstram esse descaso. Ele cita o alto preço dos insumos, a liberação de importação de produtos agrícolas sem taxação e a falta de políticas de incentivo e de defesa do setor. ‘‘Um exemplo é a política de industrialização. O Paraná está buscando empresas de outros ramos, ao invés de fomentar indústrias que agreguem valor ao produto agropecuário. É uma política míope, com prioridades equivocadas’’, argumenta.
AgronegócioSegundo o presidente da SRP, o Brasil é o único país que tem condições de ser protagonista mundial do agronegócio, devido às possibilidades de expansão de fronteiras e de aumento de produção. ‘‘Mas parece que isso não está sendo considerado, bem como a importância econômica do setor’’. O agronegócio é responsável por 35% do PIB brasileiro. Ou seja, gera anualmente US$300 bilhões. No Paraná, esse índice é de 40%, que correspondem a US$22 bilhões.
Na opinião de Galli, o produtor brasileiro está perdendo as condições para competir no mercado globalizado. ‘‘Para nós a concorrência acaba sendo desleal. Os nossos produtos têm altos custos, enquanto em outros países a produção é subsidiada’’. Ele exemplifica com os preços dos insumos, que na Argentina chegam a ser 50% menores que os mesmos produtos no Brasil. ‘‘Esse quadro preocupa e nos deixa sem perspectivas’’.
Para mudar essa situação, Galli acredita que é necessário o governo inverter as prioridades, investindo mais no setor agropecuário. Esse seria um importante passo na melhoria das condições sócio-econômicas brasileiras. ‘‘Os bons retornos no campo refletem na cidade, através da movimentação da economia e da geração de empregos’’, diz.
O governo paranaense, principalmente, deveria assumir essa postura, segundo o presidente da SRP. O Paraná é responsável por 25% da produção nacional de grãos e é o maior produtor brasileiro de soja. ‘‘Ou seja, temos vocação agrícola e isso não pode ser desprezado. Temos que sair da posição de maior exportador de produtos primários’’. Uma das propostas de Galli para o Estado é o investimento na agroindústria.
SimpósioEm busca do fortalecimento do setor, a Sociedade Rural do Paraná realizará no primeiro trimestre de 1999 um simpósio sobre agronegócio, com a participação do vice-presidente da República, Marco Maciel. O objetivo é reunir representantes das classes política e empresarial do Estado e do País, para expor os problemas enfrentados. ‘‘O nosso primeiro passo será sensibilizar e despertar os políticos e empresários para a questão’’, explica.
Galli espera que essa iniciativa da SRP se reflita em organizações da categoria em outros Estados. ‘‘É importante que o Brasil desperte para a importância da agricultura: o governo com ações enérgicas de apoio e incentivo, e a própria população, dando respaldo ao setor’’, conclui.

mockup