Dejetos causam impacto ambiental
O lançamento de dejetos de suínos, não tratados adequadamente, nos recursos hídricos deveria ser evitado e devidamente regulamentado. A água, fonte alternativa fornecedora de energia natural de modo renovável, a exemplo da energia hidráulica, enquanto se usa não acaba. Mas o problema é a água doce, insubstituível para a vida mas escassa, não só pela quantidade como pela qualidade. De toda a água existente no Planeta, apenas 2,5% são doces e distribuídas, de modo que 69% estão nas geleiras, 30% eme águas subterrâneas, 0,7% em pântanos e somente 0,3% em rios e lagos, de onde a população se abastece. As informações são do pesquisador da Área de Engenharia Rural da Embrapa/Suínos e Aves, de Concórdia (SC), Carlos Cláudio Perdomo.
Potencial poluenteEm artigo escrito no último boletim da Embrapa/Suínos e Aves, Perdomo afirma que, se em termos de quantidade a água é bem escassa, em relação à qualidade será um bem cada vez mais caro, uma vez que toda a comunidade produz resíduos sólidos e líquidos, cuja diversidade do manejo é que determinará o grau de diluição, implicando, na maioria das vezes, na geração de grandes quantidades de água residuária.
Para o pesquisador, o Século 21 se caracterizará como o século da luta pela água, face à escassez e por ser um ágil veículo de poluição. A suinocultura, escreveu Perdomo, é considerada pelos órgãos de proteção ambiental como atividade de grande potencial poluente.
A capacidade poluente dos dejetos suínos, em termos comparativos, é muito superior ao de outras espécies, a exemplo da humana, pois enquanto a demanda biológica da oxigênio (DBO - parâmetro utilizado para caracterizar o nível de poluição) de um suíno com peso vivo de 85 quilos é de 200 mg/litro/dia, a de um homem de peso equivalente é de 60g/habitante/dia. Por outro lado, a produção diária de dejetos de um suíno é significativa, cerca de 8,61 quilos por cabeça ao dia (considerando um desperdício mínimo de água de limpeza e higiene).
Risco à saúdePerdomo cita o exemplo de Santa Catarina. O Estado tem rebanho de 3,5 milhões de cabeças (80% concentrados na Região Oeste) e produção de 30,1 mil toneladas diárias de dejetos (12000mg/litro de DBO). Apenas 15% dos criadores têm alguma forma de armazenamento, utilização e tratamento (esterqueiras e bioesterqueiras), o que representa um elevado risco à saúde humana e animal, além de um desperdício diário da ordem de 120 toneladas de fertilizante (NPK).
Se a água residuária for se acumulando, assegura o pesquisador, a decomposição dos materiais orgânicos pode levar à produção de grandes quantidades de gases mal-cheirosos e, quando não tratada convenientemente, contém numerosos microorganismos patogênicos que habitam o trato intestinal humano ou animal, ou que estejam presentes em outros resíduos.
Uso de recursos
naturais deve
ser melhor
planejado
Um outro fato importante, alerta, refere-se à presença de nutrientes, os quais podem estimular o crescimento de algas ou serem tóxicos a plantas e animais. A imediata remoção das águas residuárias das fontes de geração, seguidas de tratamento e disposição, não somente é desejável em uma sociedade preocupada com as questões de saúde, como necessária à manutenção do desenvolvimento auto-sustentável.
Se o poder poluente for maior que a capacidade de depuração do solo ou dos recursos hídricos, comenta Perdomo, ocorrerá a morte dos organismos aeróbicos presentes, instalação de uma microflora e fauna desejáveis, redução do oxigênio disponível, eutrofização de lençol freático, lagos e rios. Entre os principais efeitos desta situação, ele cita a proliferação de moscas e borrachudos, facilmente visualizadas e que tanto desconforto causam às comunidades rurais e urbanas, restringindo o lazer e as atividades externas.
Dejetos não tratados adequadamente apresentam grande número de patógenos, garante o pesquisador. Um exemplo são as salmonelas, que representam um risco à saúde humana e animal. Entre seus principais efeitos, ele destaca as gastroenterites, septicemia, febre entérica e meningite. Por outro lado, a presença das formas nitrogenadas (nitratos, nitritos e nitrosaminas) nos recursos naturais em consequência da adição contínua de dejetos, constitui a curto prazo uma preocupação importante pelo seu efeito acumulativo sobre o organismo animal e humano, provocando hipertensão, câncer de estômago e esôfago, alergias e problemas no sistema nervoso. Portanto, seu lançamento em recursos hídricos deveria ser evitado e devidamente regulamentado, escreveu o pesquisador.
Maior planejamentoA contaminação dos recursos naturais com microminerais também pode constituir, a médio prazo, alerta o pesquisador, um problema grave. A indústria de rações utiliza normalmente grande quantidade de zinco e cobre em suas formulações, uma vez que resultam relativamente baratos e eficientes como promotores de crescimento e prevenção de doenças. Cerca de 3000 ppm de zinco e de 150 a 250 ppm de cobre são utilizados na prevenção e controle de diarréias de leitões, e grande parte desta concentração é excretada pelos animais. O zinco pode gerar fitoxidade e o cobre tem efeito deletério sobre peixes e outras espécies.
O planejamento do meio ambiental começa a ser aceito no meio empresarial e, logo deve alcançar o meio rural, acredita. Para ele, o profissional que atua nesta área deverá se capacitar para planejar o uso dos recursos naturais e situar as atividades tanto na propriedade rural como na região (ecossistema), de forma que dê suporte à atividade econômica. Isso vai exigir controle dos efluentes emitidos, formulações de ração mais adequadas, especial atenção ao sistema de manejo dos dejetos, higienização e limpeza, adequação das edificações, sistema de reciclagem e/ou tratamento.
A curto prazo, ele acredita que as ações devem estar voltadas para a redução de 30% do volume produzido e de 10% para o poder poluente das dejeções, através da eliminação dos desperdícios e eliminação das fontes de diluição dos dejetos (bebedouros, excesso de água de limpeza e higiene), adequação do sistema de utilização e tratamento a características específicas de cada produtor. Treinamento e capacitação de técnicos para o dimensionamento das soluções. Por outro lado, a atuação sobre indústria de rações e equipamentos é de suma importância para a solução do problema.
A preocupação, segundo o pesquisador da Embrapa, é o fortalecimento das instituições de desenvolvimento e pesquisa, formando e recompondo equipes, laboratórios e a infra-estrutura necessária de suporte técnico à atividade.





