Encontrar pessoas com cartazes pedindo ajuda para matar a fome é uma cena comum nas cidades brasileiras. Uma das horas mais difíceis da vida de uma mãe ou pai é quando não tem o que dar para os filhos comerem, por isso não há como ficar insensível quando se depara com alguém pedindo dinheiro para comprar comida.

Com frequência, vemos reportagens em programas de televisão, mostrando mães que deixam de comer para alimentar as crianças ou improvisando alguma forma de atendê-las. A fome é uma das grandes mazelas da humanidade, apesar do imenso avanço tecnológico e da grande produção de alimentos em várias partes do mundo.

Segundo a ONU, em torno de 800 milhões de pessoas são afetadas pela fome em vários países do mundo, principalmente na África e parte da Ásia. No Brasil, esse número alcança 30 milhões de pessoas, que enfrentam problemas relacionados à fome e desnutrição. As causas dessa tragédia passam pela desigualdade social, má distribuição de renda, desemprego, guerras e conflitos, crises humanitárias e econômicas, desastres naturais, desperdícios de alimentos, entre outros.

Quando penso nisso é inevitável lembrar da minha família e das atitudes da minha mãe para garantir a alimentação de seis crianças. Embora tenham sido situações passageiras, durante alguns períodos vivemos no limite da linha da pobreza, passando por momentos de insegurança alimentar. Meu pai trabalhava como operário e sua renda não era suficiente para atender a todas as necessidades da família. Para suprir as carências, minha mãe lavava e passava roupas para outras famílias, fazia sonhos e pastéis para vender e costurava retalhos de napa produzindo sacolas, tapetes e sapatilhas, que vendia para pessoas da cidade e da área rural.

Quando as pessoas do interior não tinham dinheiro ela aceitava trocas por ovos, leite, linguiças, queijos, abóboras, banha, carne de porco ou frango. Muitas vezes, porém, ela não sabia o que íamos ter para comer no dia seguinte, o que a deixava triste e preocupada. Na época de aulas não havia tanto problema, pois na parte da manhã ou da tarde, a gente tinha o reforço da merenda escolar, já que todos os filhos frequentavam o ensino público.

Mas quando a situação complicava ela dava um jeito de arranjar algo para comermos, improvisando alguns tipos de alimentos. Para substituir o pão no café da manhã ela costumava fazer “crostoli” e em outros dias nos servia um bolinho de massa frito, que a gente chamava de “chacha”. Quando não havia pó de café, a solução era chá de erva mate com leite. Eu achava aquela mistura um tanto esquisita, mas servia para matar a fome e dar energia, já que a erva mate é um estimulante natural, rico em cafeína e nutrientes.

Em algumas noites frias de inverno minha mãe fazia uma polenta e nos servia com leite e café. A gente ainda podia escolher: misturar a polenta com o café com leite usando a xícara ou um prato fundo. O prato fundo sempre era o preferido, pelo fato de caber mais comida. Nessas ocasiões, tinha polenta com café e leite à vontade, dava até para repetir. Quando isso acontecia, nós íamos dormir bem alimentados e felizes.

Não posso falar pelos meus irmãos, mas eu adorava o café com polenta no prato. Achava que se tratava de uma iguaria e não de uma necessidade, mas era a criatividade e o amor de mãe servidos no prato. Que delícia!

Gerson Antonio Melatti, leitor da FOLHA.

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