Imagem ilustrativa da imagem DEDO DE PROSA



Cidade grande
Estávamos na década de 1970. Eu e uma amiga trabalhávamos num sindicato rural e partilhávamos da vida sofrida e da situação dos trabalhadores rurais da época, a maioria boias-frias, pequenos proprietários, "encostados" ou aposentados pelo Funrural.
Morávamos em cidades pequenas e raramente viajávamos, a não ser pela vizinhança, sempre a trabalho ou em reuniões da igreja. Éramos funcionárias dedicadíssimas, menos pelo salário e mais pelo idealismo, e nos encontrávamos frequentemente para reuniões.
Certa vez, o presidente do sindicato resolveu nos mandar para a capital do Estado, para fazer um curso na Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Paraná (Fetaep), com orientações relativas ao trabalho. Entre todos os funcionários, eu e minha amiga fomos as escolhidas. Ela era muito engraçada, bem humorada, muito responsável e esforçada no trabalho. Pela primeira vez iríamos sozinhas fazer uma viagem para uma cidade grande.
Planejando a viagem, no maior bom humor, ela me recomendou: "Para que ninguém desconfie que somos caipiras, de cidade pequena, inexperientes, e queira nos passar a perna, vamos fazer de conta que somos viajadas, que conhecemos tudo, Curitiba, então, não saímos de lá", disse. E assim preparamos tudo, fizemos roupas novas, casacos, pois era inverno e embarcamos na grande aventura.
Minha amiga tinha um pequeno problema: se começasse a rir, dava uma crise de soluços e não conseguia parar. Quanto mais ria, mais soluçava. E soluçava e ria. E ríamos mais ainda.
Já havíamos percorrido uns 80 quilômetros e passado por três ou quatro cidades, quando o ônibus fez uma parada na cidade de Rolândia. De dentro do ônibus, animadíssimas e, ao mesmo tempo, ansiosas, olhávamos a cidade e a estação rodoviária. Foi quando minha amiga exclamou muito admirada: "Nossa! Rolândia é uma cidade grande".
Percebendo o grande "fora" nas próprias palavras, olhou para mim e começamos a rir, lembrando-nos do que havíamos combinado. E ela teve uma crise de soluços, das grandes, chamando a atenção de todos os passageiros. Deveriam achar que éramos umas tontas, muito caipiras.
Chegamos à capital e fomos para a sede da Fetaep, papelzinho na mão com o endereço e tudo o mais, onde nos encontramos com outros funcionários de todo o Estado. E foi uma festa, quer dizer, foram dias de trabalho e aprendizado. Visitamos o Passeio Público, pela primeira vez fomos a um shopping center, conhecemos Santa Felicidade. À noite, no alojamento, ninguém conseguia dormir, tamanha era a "concentração" dos participantes, todos vindos do interior para aprender e, é claro, conhecer pessoas novas, passear, e outras coisas mais, próprias da juventude. Ao término do treinamento, havíamos feito muitos amigos, com os quais, posteriormente e por algum tempo, trocaríamos correspondência e nos lembraríamos com saudades.
Voltamos felizes, cheias de novidades, trazendo fotos em preto e branco da capital, tiradas no lambe-lambe, com nossas roupas novas, feitas especialmente para a viagem das caipiras à cidade grande. E, é claro, rindo muito com a crise de soluços, um "mico" que toda viagem, para ser boa, tem que ter.

Estela Maria Frederico Ferreira é leitora da FOLHA

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