Imagem ilustrativa da imagem DEDO DE PROSA



A coroação
No meu tempo de criança havia uma tradição muito bonita e devocional da Igreja Católica, existente até nossos dias. Era a coroação de Maria, ao final do mês de maio. Para isso, um grupo de crianças, formado especialmente por meninas, se juntava, lideradas por uma jovem "filha de Maria", para ensaiar os cantos e montar a grande festa. A coroação consistia em distribuir graciosamente as crianças em duas escadas laterais, na porta da Igreja Matriz, tendo ao alto, no centro, a imagem de Nossa Senhora que seria homenageada e coroada como Rainha, no último domingo de maio.
Os cantos eram muito bonitos, com músicas inocentes e suaves, cujas letras lembravam a criação, homenageando a mãe do criador (sol, lua, estrelas, dia, noite), as virtudes teologais, fé, esperança e caridade, a Bernadete com aventalzinho vermelho e os pastorezinhos. Muitos anjos com asinhas recortadas em papelão coberto com penas brancas ou papel crepom enroladinho. As vestes, em cetim, de acordo com o que a música falava (o sol, por exemplo, era amarelo) e na cabeça uma coroinha recortada com o símbolo, enfeitada caprichosamente com brocal, glíter e lantejoulas, ou apenas florzinhas brancas. Alguns pais, pagando promessa, vestiam os menorezinhos de anjos e os carregavam no colo.
Havia uma certa hierarquia na escolha das meninas para os cantos. O ato de "coroar" a Nossa Senhora era o mais importante. Exigia que a criança cantasse sozinha três lindos e difíceis cantos, e que tivesse voz forte e bonita. Numa sequência harmoniosa, em meio a muitas pétalas de rosas, algumas músicas eram cantadas em coro, outras solo, além do Coro dos Anjos, do qual todas, inclusive os pequeninos, participavam. Mas o ponto alto mesmo era a "coroação", ao qual todas as meninas almejavam e esperavam, a cada ano, serem as escolhidas.
Num desses anos eu esperava ser a escolhida. Já tinha sido o dia, a fé, a lua. Meu sonho era "coroar". Mas existia uma concorrente, voz poderosa, mais velha que eu, enfim, sem chance. Resolvi encarar e lutar para realizar o meu sonho. E partimos, literalmente para a luta, ou melhor, disputamos nos tapas. Rolamos no chão, no maior barraco, entre unhadas, puxões de cabelo (ela tinha um cabelão) e tapas. A "Filha de Maria" que nos ensaiava separou a briga e pregou o maior sermão. Chorei muito, não pela briga, nem pelos machucados. O que doía e humilhava mesmo era perder para alguém quem tinha um vozeirão e mais fama de cantora do que eu. E mais forte também.
A tristeza foi tão grande que nunca mais quis participar da coroação. Ainda hoje lembro as letras dos cantos decorados e repetidos centenas de vezes, lamentando minha voz pequena demais para entoar, sem a ajuda do microfone, aquele canto lindo que ecoaria por todo o largo da Igreja, apinhado de gente, no frio do final de maio: "Salve, Glória de Israel...! De toda a criação, és a mais bela criatura...".

Estela Maria Frederico Ferreira é leitora da FOLHA

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