Santo Antônio, São João e São Pedro rogai por nós
Motivado pelo clima que se aproxima, procuro entre fotos e vagas recordações na memória relembrar as festas juninas da família. Entre uma Caloi roxa e uma Barra Forte amarela, a única diferença era o porte físico dos dois garotos que rumavam ao "Três Figueiras".

Chegando lá, sempre nos encontrávamos com a tia Maria. Após algumas garrafas de água para repor a energia, recebíamos as instruções para os preparativos da festa que se aproximava. Muito guerreira, nascida e criada no sítio, tia Maria nunca abandonou as raízes. Casada e mãe de dois filhos, sempre foi a melhor amiga da minha avó. Duas filhas mulheres mais velhas entre os nove irmãos, eram elas quem organizavam o terço de festa junina da família.

Varrer todo aquele terreno, pintar as pedras com cal, e até mesmo improvisar um portal de entrada para a família, eram algumas de nossas tarefas. Depois de todo o serviço realizado, o esforço que se transformara em fome se materializava como recompensa no cheiro de pão caseiro que vinha lá da cozinha.
Uma coisa que sempre me chamou a atenção era a forma com que a tia Maria, humildemente, sempre nos recebia em sua casa. Enquanto aquele pão ia sumindo gradativamente, fatia após fatia, contos ou estórias que a tia Maria nos contava eram o enredo de um jogo de cartas para distrair.
De volta aos trabalhos, era hora de finalizar os preparativos. A montagem da fogueira era, sem dúvida nenhuma, o ápice da festa. Toda madeira, galhos e até pneus velhos encontrados no sítio eram matéria-prima da nossa fogueira. Pouco a pouco, o barulho dos motores dos carros ia invadindo aquele silêncio que se faz no meio daquela imensidão de terra e mato.
Assim que começava o terço, entre um mistério e outro, corríamos, meu primo e eu, para fora da casa, onde explodíamos um rojão no alto do sereno na noite de São João no sítio da tia Maria. Explodia dentro do meu peito a alegria de quem gostava de toda aquela festa. Lá dentro, vozes desafinadas cantavam um hino qualquer em louvor aos santos do mês, enquanto lá fora atacávamos a mesa das guloseimas. O mantra "Santo Antônio, São João e São Pedro, rogai por nós", soava como sirene de alerta para o próximo rojão.
Eu ainda não encontrei um verdadeiro sentido da palavra saudade. Mas algo que se aproxima muito e que me fez ter esse sentimento enquanto escrevo esse texto são as lembranças daquele tempo onde smartphones, tablets e tecnologia nenhuma no mundo vão me devolver.

Gustavo Andrade é jornalista em Londrina

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