DEDO DE PROSA
Antigamente as pessoas se reuniam em volta de um fogão a lenha em dias frios e contavam histórias que na sua imaginação corriam soltas. Lobisomens, bicho papão, saci-pererê e tantas outras crendices faziam as noites assustadoras, principalmente para quem andava em carreadores escuros pelas matas que faziam sombra nas estradas de terra. A luz elétrica ainda não havia chegado e ainda não tinha acabado com os medos dos mistérios que a ciência ainda não havia explicado. Esta é uma estória típica daquela época.
Era um daqueles caboclos sabidos que tinha no couro da sola do pé quase um dedo de grossura e tinha um sítio numa cidade muito distante. Foi pioneiro da região. Quando chegou ali era muito mato e muito bicho. Contava que afugentou muita onça naquelas paragens. Um tempo difícil, que piorou com a segunda guerra mundial, quando faltava muita coisa: açúcar, farinha e querosene para alumiar a escuridão daquelas noites perigosas. Mas o que matava o povo de medo era a tal de mula sem cabeça.
Muita gente falava dela, mas ele nunca vira nada. E sempre incrédulo ria das histórias. "Minha gente, isso é tudo supertição." Os amigos diziam que se ele continuasse a fazer troça da mula sem cabeça podia topar com ela numa daquelas noites. E ele brincava que era coisa de gente medrosa.
Certa noite, depois de sair da beneficiadora de arroz onde vendera a sua pequena colheita, passou pela venda. Lá estavam os amigos de sempre, jogando bocha. Perguntaram se ele jogava uma partida e ele disse que não. Para caçoar, falou que tinha um encontro com a mula sem cabeça.
Os amigos então avisaram: "Não brinque não. Se vir a mula sem cabeça feche os olhos e esconda as unhas que elas brilham. Assim ela não te vê e te deixa em paz." Ele riu-se. "Como é que mula sem cabeça enxerga brilho de unha se não tem olho pra ver nada disso?" Deu de ombros, brincalhão, e foi embora.
Para chegar em sua casa dava uma hora a pé. A terra de areia atrasava um pouco a caminhada mas ele já estava acostumado. Lá pelas tantas escutou um galope vindo de longe. Quando percebeu, era a tal de mula-sem-cabeça que corria ao seu encontro. "Não é que esse trem existe mesmo, sô?" E tocou a correr do animal assombrado senão atropelava-lhe as fuças.
Era corajoso mas não era doido e com coisa de outro mundo não se brinca. E danou-se a correr pela estrada. E a mula atrás. Fogo na cabeça quase a lhe alcançar. Já quase perdendo o fôlego e encomendando a alma a Deus, rezou tudo quanto era oração e fez menção de nunca mais abusar daquelas coisas. Foi quando lhe deu na ideia de lembrar do que os amigos lhe disseram. Saiu da estrada, fechou os olhos e se encolheu escondendo as unhas. Nada que desse brilho. E escutou o animal passar e ir embora no mesmo galope.
Abriu os olhos e tomou outro susto. Na cacunda da mula, fazendo trança na crina, estava aquele de uma perna só com uma touca vermelha na cabeça a lhe rir enquanto bafejava o cachimbo. "Dá-lhe saci!", riu, satisfeito. E pegou a estrada para casa, assobiando feliz, enquanto mula e saci sumiam.
Nisso, ele acorda com um chacoalhão do dono da venda. "Acorda que eu to fechando." Ele, meio atordoado com o sonho ruim, respondeu: "É, acho bom dormir por aqui mesmo seu Zé. Amanhã pego a estrada". E pagou uma pernoite na venda. Pelo sim pelo não, seguro morreu de velho!
Dailton Martins é leitor da FOLHA





