DEDO DE PROSA
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Sidney Girotto é leitor da FOLHA 
No final da década de 1930, meus pais mudaram de Quatá, Estado de São Paulo, para Cambé onde compraram um pequeno sítio. Deixaram para trás, seus entes queridos já falecidos. Passados alguns anos, as coisas tinham melhorado, então, eles iam nos dias de finados até aquela cidade visitar o cemitério.
Certa ocasião, próximo ao dia dedicado aos mortos, algumas freiras que estavam em Cambé ministraram um "curso" de como fazer aquelas coroas de flores de papel, muito comuns nos cemitérios na época. Minha irmã mais velha, Nair, que não era muito boa em trabalhos manuais, matriculou-se no referido curso. Nos fundos do nosso sítio, tínhamos uma grande moita de bambu , de muita serventia. Precisava de cercado para as galinhas, recorria ao bambuzal; para "encanamento" da bica à caixa dágua era de bambu; nos casamentos da vizinhança, os espetos do churrasco eram de bambu. Como necessitava de fazer o arco para confeccionar as coroas, meu pai, muito caprichoso, os fez de bambu. Chegou o dia da primeira aula do curso, partiu minha irmã com uma sacola levando a tesoura, cola, os arcos e várias folhas de papel crepom, de diversas cores. Após várias "aulas" as coroas estavam prontas.
Chegou o dia dos finados e, de madrugada, partimos para a viagem. Nossos pais, minha irmã, irmãos e logicamente meia dúzia de coroas. Deve-se dizer que no jipe as coisas não estavam confortáveis. Ao aproximar de Quatá chovia muito. Chegando ao cemitério, não tinha como descer com as coroas pois se desmanchariam. Então a opção foi deixá-las no veículo. Após as orações, voltamos sob guarda-chuvas.
Fomos visitar os compadres, amigos e parentes. Após o almoço voltamos ao cemitério e a chuva não dava trégua. Minha irmã não permitia descer com as coroas, pois tinham-lhe dado muito trabalho para fazer. Mas realmente não eram nenhuma obra de arte. Então o que fazer com as mesmas? Trazê-las de volta? Colocá-las onde? Todos queriam deixar as coroas menos a Nair. Meu irmão Edson, sempre meio desajeitado, já tinha se sentando em uma delas destruindo-a. Meu pai, já meio bravo com o impasse, resolveu descer com as coroas. Nós ficamos no jipe. Poucos minutos depois, ele voltou ainda mais bravo pois, com a chuva, a tinta do papel crepom manchou suas roupas. Minha irmã chorosa prometeu nunca mais fazer coroas, o que nos deixou mais felizes.


