A praça



"A música enchia os céus da pequena cidade em formato de sol, com suas ruas saindo como raios da praça central"

"Com esse prefixo musical, amigos ouvintes, vai para o ar o serviço de alto-falante..." Era assim que a música enchia os céus da pequena cidade em formato de sol, com suas ruas saindo como raios da praça central.
Reunidos na praça, jovens, crianças, senhoras que saíam da igreja e se sentavam para esticar as conversas ou simplesmente com a desculpa de esperar os filhos. Homens jogavam nos bares em volta, o pipoqueiro simpático na profissão há décadas sorria, namorados buscavam os cantos mais discretos, bêbados inofensivos perambulavam por ali.
A música continuava com interação do locutor de voz empolgada: "E agora, amigos e ouvintes, na voz do brasa Roberto Carlos, alguém oferece à Aparecida com os dizeres da música Namoradinha de um amigo meu!".
Logo depois, com outras informações, o locutor continuava, mais empolgado: "E atenção, Maria de Fátima, essa música o Pedrão oferece a você com amor, ternura e algo mais..." Receba as flores que lhe dou, com Nelson Ned, enchia o ar de romance!
Enquanto alguns namoravam, moças e rapazes passeavam em volta da praça. Hoje não consigo ver graça nessas voltas mas certamente era para a paquera! Se houvesse algum cara ou garota de fora, isto é, de outra cidade, fazia o maior sucesso. E novamente o apresentador era o que fazia a ponte: "Atenção, José Carlos, estão pedindo para você apresentar a sua prima... Apresenta!".
Tinha umas mensagens estranhas que chegavam ao locutor por meio de bilhetes, como: alguém oferece a alguém e esse alguém saberá quem. Um trava línguas ou mensagem secreta de algum amor proibido.
Ouviam-se músicas românticas, da jovem guarda, algumas mais antigas, os prefixos eram clássicos de Ray Conniff e orquestra. Ah, e tinha as sertanejas, de raiz, geralmente solicitadas pelos jovens ou adultos que moravam na zona rural e vinham para a cidade. Lembravam os aniversários, os casamentos, as festas e os velórios. Para isso a música mudava, tocava-se a Ave Maria e num tom sério e triste, a voz mais rouca que de costume: "Aviso de falecimento! Faleceu hoje... Aos que se fizerem presentes a família enlutada agradece".
Mas a praça ficava animada mesmo era com as festas e quermesses. Vinha muita gente de fora e principalmente os mais jovens se assanhavam na expectativa de arrumarem um namorado novo.
Os mais abastados entravam no salão paroquial, sentavam com suas famílias e amigos, bebiam e comiam frango assado. Nas portas, as barracas do coelho, bola na lata.
Lá fora, as voltas na praça eram o melhor da festa! Com a música solta, as pessoas riam, sonhavam, choravam e até brigavam. Apaixonavam-se ou rompiam namoros. Era música oferecida para o novo amor, para o ex, com despeito, para os amigos com sincera amizade.
"Alguém te espera no caramanchão... você é um pão... você é a garota que minha mãe quer para nora..." e assim por diante.
Todo aquele festival de som, sonho, paixão e desilusão, alegria pelas coisas simples, o vento conduzia em ondas pela cidade em forma de sol, iluminada pelas estrelas e pela lua, que observavam tudo e tudo guardavam no baú da saudade de um tempo e um lugar que não existem mais.


Estela Maria Frederico Ferreira é leitora da FOLHA.

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