No bairro Aurora, tinha a Capela São Sebastião, distante 10 quilômetros da sede do município. No final da década de 1960, a região era coberta por cafezais, com pequenas propriedades. No local da capela, tinha o salão paroquial, um grande pátio e o campo de futebol onde, nas tardes de domingos, as famílias iam assistir aos jogos e as mulheres, colocar as conversas em dia.
Havia muitas festas no local e muitos jovens participavam do movimento católico chamado Juca (Juventude Católica). Certa ocasião, no começo do ano, em uma reunião, seu presidente, um rapaz de origem japonesa, por nome Áureo, muito ativo, sugeriu que no final do ano fizessem uma viagem a Aparecida do Norte. O entusiasmo foi grande, e por que não dar uma chegadinha ao tão sonhado Rio de Janeiro? Mas teriam que trabalhar muito no ano para arrecadar fundos. Aceita a proposta, traçaram os planos e durante todo o ano, além de uma mensalidade, organizaram bingos, rifas, promoções de pizza, coxinhas, foram garçons em casamentos...
Chegou, enfim, o final do ano e o dia tão esperado. Todas as despesas seriam pagas com o dinheiro arrecadado, então ninguém precisaria levar nada, a não ser para comprar lembrancinhas de Aparecida. Muitas eram as encomendas, como medalhinhas, terços, etc.
O ônibus, ao meio-dia, estava já estacionado em frente à igreja matriz quando começaram a chegar os viajantes com suas famílias. Eram muitas malas, pacotes e embrulhos. O pároco, Padre Chico, um catarinense, jovem, loiro de olhos azuis, iria com a excursão. Hora da partida, sob rajadas de rojões e abano de lenços misturado com choros e risos, o ônibus partiu. Seriam cinco dias de aventuras. Chegaram pela manhã ao destino e após se alojarem, já foram para a missa que seria rezada pelo padre Chico na antiga Basílica de Aparecida. O encanto de todos era geral, tudo era novidade.
No terceiro dia, estava marcado para irem para o Rio de Janeiro. Às 4 horas da madrugada todos no ônibus para a partida. Ao chegarem à praia, todos desceram, já com os calções de banho e maiôs e as toalhas penduradas no pescoço. Todos estavam extasiados com a beleza. O Rubão, um rapaz moreno, foi logo exclamando: - "Que corgão!", referindo-se ao mar em comparação ao Córrego do Salto, do seu bairro Aurora.
O Zé Gardenal, um rapaz loirinho de olhos azuis, de média estatura - e que tinha esse apelido por ser calmo -, falava pouco, com uma voz arrastada, mas não tomava a tal medicação. Tinha uma namorada. Zé Gardenal e sua namorada, de mãos dadas, foram logo entrando na água. Aí aconteceu a tragédia. Uma onda veio e "empacotou" os dois. Levantaram e, por desgraça, a dentadura do Zé desapareceu. Pânico geral. Todos para a água, à procura da dita cuja. Sem sucesso. Zé recolheu-se no ônibus e não mais saiu. Envergonhado e sob gozações dos colegas, chorava. A namorada ficou indignada.
Por ironia, ao saírem da Cidade Maravilhosa, pararam para jantar em uma churrascaria. Logicamente Zé não desceu.

mockup