O apito da chaleira era como o sinal da escola anunciando a hora do recreio. Na casa da avó, a criançada se sentia de férias de verdade e a hora da comida era das melhores. Já que se casou bem jovem e logo teve os filhos, Branca era uma avó enxuta e cheia de disposição. A primeira refeição do dia, era bem servida. Café, leite, pão caseiro e bolachinha de nata. Os quatro netos se ajeitavam nas cadeiras de madeira e cada um tinha seus mimos.
O pão picadinho no prato fundo ganhava um banho de leite morno e a sopa de pão era a preferida do neto mais velho, Luis. Num copo de leite com achocolato cheio até a boca, o caçula Nenê ia molhando bolachas de maizena. Descuidado até os dias de hoje, se perdia no tempo. As bolachas ficavam moles demais e acabavam indo pro fundo do copo. E toda vez era do mesmo jeito. Então ele pegava um novo biscoitão e ia resgatar o molengo quase desfeito. Que cena! A menina do meio, não tomava nem leite e nem café. Então vó Branca corria no canteiro, apanhava um punhado de capim cidreira e fazia um chá bem morninho para a mocinha, Lívia. O primo dos três irmãos completava a farra à mesa, e para Kiko, tudo estava bom. Vez ou outra derrubava leite na toalha e a vó dava jeito sem ralhar.
As diferenças para a avó eram levadas numa boa. Ela gostava do jeitinho de cada um e valorizava quem preferia ficar quietinho desenhando enquanto ela estendia roupa. Deixava deitar no sofá da sala e comer pipoca à tarde e, quando os meninos chegavam de lama até as orelhas, dava risada da traquinagem. A serenidade da avó para lidar com as tarefas domésticas, cuidar das crianças, dar conta do fogão e não deixar do lado o marido era admirável.
No começo do mês, a vó se arrumava toda, ajeitava os netos e todo mundo ia pra cidade. Era dia de fazer compra de mês em Getulina e encher as latas de arroz, feijão, farinha, açúcar cristal e café. Daí sim, a vó ficava sossegada porque tinha o que dar de comer para a turminha nas férias. O sorvete, era garantido.
A distância da casa da avó e dos netos fazia das férias escolares um momento único e, a sua maneira, a criançada aproveitava. Do banho de chuva, à guerra de mamonas, história não faltava para contar na volta para a cidade grande. Na casa de madeira da avó, o acessório mais moderno era uma chaleira que apitava. Quando a noite chegava, a reunião era na sala, na base do cafuné, com vó Branca e vô Maroto contando alguma história e enchendo a cabeça da criançada de imaginação.

Walkiria Vieira é repórter do NOSSODIA

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