Você é daqueles que quando ouve uma música, sente um cheiro ou experimenta uma fruta, o passado volta em forma de doces lembranças? Pois bem, eu tenho estas sensações.
Fui seminarista por oito anos e hoje guardo boas lembranças do tempo que passei no seminário com a intenção de ser padre. Estava certo de que a vida religiosa seria um bom caminho para minha estadia aqui na terra. Fazer bem ao próximo em troca do céu. Mas (tem sempre um mas, né?!) o tempo foi passando e a ideia de servir a Igreja como sacerdote foi ficando um tanto quanto distante. Mas isso não vem ao "causo" agora.
Meu pai tinha um Corcel 1972, de cor amarela. Daqueles que ainda usavam o cochinil preto e para-lamas nas quatro rodas. Era um clássico. Foi com ele que nos aventuramos numa viagem de Londrina até nosso destino, Rio Claro (SP), onde ficava o seminário. Lembro-me que o saudoso Padre Wistremundo Roberto Perez Garcia nos encarregou de comprar uma melancia para lancharmos durante o percurso. Dona Maria Rampelotti preparou panela de pressão cheia de frango frito com farofa. E lá fomos nós.
Ao chegarmos, a primeira imagem que pude observar foi a de uma escadaria e ao lado um enorme (quase centenário) pé de manga espada. Era janeiro e ainda pudemos apreciar alguns de seus frutos. Lançávamos pequenos pedaços de paus no intento de ver ao chão aquelas preciosidades. Os fiapos se entrelaçavam nos dentes e o caroço ficava até branco. Que sabor!
Depois de devidamente acomodados em nosso dormitório, partimos na manhã seguinte após a missa de acolhida aos 80 novos seminaristas, para descobrir o que aquele lugar nos reservaria. Tínhamos que conhecê-lo, pois ali seria nossa morada por longos anos até alcançar outros degraus da formação sacerdotal.
Era um prédio de três andares bem antigo, muito bem construído com detalhes arquitetônicos exuberantes. Linda fachada com uma pequena praça e ao centro dela a imagem da Virgem Maria. Era o local onde rezávamos o terço todos os domingos às seis da tarde.
Nas andanças que fazíamos pelos pomares descobríamos frutas que jamais esqueceríamos. Tinha um enorme pomar com variedades de citros que jamais havia visto; laranja do céu, sanguínea, champanhe... sem contar as tradicionais pera, baiana e lima além de poncãs, tangerinas e até a inusitada kinkan. Às vezes enchíamos pequenas sacolas de laranjas e sentávamos num morro à beira da Washington Luis, vendo os carros passarem naquelas tardes de domingo.
Mas uma fruta em especial não me sai da mente: abil. Você já provou abil? Faço um convite! É uma mistura de jabuticaba com melão...um sabor indescritível. Quando o pé está carregado, parece uma árvore de natal, tamanha a quantidade de furtos. Eles são de cor amarela e uma poupa saborosíssima. Mas, um conselho: não coma demais. Lembro-me que subimos num dos pés e começamos a desfrutar da doçura desta fruta. Comemos tanto que (como dizia minha mãe) "chegou a repuná".
Hoje tenho o privilégio de ter um pé de abil. E quando colhi o primeiro fruto, as lembranças me fizeram voltar ao ano de 1980. O cheiro e o sabor fizeram com que meus olhos se fechassem por uns instantes e um pequeno nó na garganta se formasse, não de repugnação ao fruto, e sim das boas e eternas lembranças de quando era seminarista. Um viva às frutas!

Valdinei Franco é leitor da FOLHA

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