DEDO DE PROSA
Meu pai Ilto contava que meu avô Irto, no final da década de 1930, comprou um Ford bigode. Naquela época, ainda era luxo comprar um automóvel e embora ele não fosse rico, havia feito muitos bons negócios.
Meu avô veio da Itália com meus bisavós, com muita vontade vencer na vida. Tinha uma pequena propriedade rural, mas gostava mesmo era do comércio. Morava numa cidade do interior de São Paulo, Ibitiuva, que naquela época - início do século passado - já era antiga. Quando meu pai, eu e meu irmão fomos visitar a cidade, na década de 1980, ele falava com muito saudosismo de tudo o que viveu e sobre as pessoas com quem conviveu naquela época. Meu pai contava sobre quando era criança e parecia que enquanto ele falava, um filme passava em nossa frente, tamanha era a intensidade de suas lembranças.
Meu avô era carroceiro, com carteirinha e tudo mais. Antigamente, era como ter carteira de motorista. E era importante ser carroceiro. Meu tio Aluisio, segundo me disse outro dia, ainda tem a tal carteirinha de carroceiro.
Perguntei sobre o Ford bigode e ele me disse que era ano 1929. Fico pensando que se meu avô não comprou novo, ainda assim era caro. Peças só tinham originais, pois não é como hoje, que você compra similar. E a mecânica era feita só na autorizada. E hoje tem oficina autorizada em quantidade muito maior que antigamente.
Década de 1930? Imagino a dificuldade para arrumar um carro desses. Mas meu avô comprou o Ford. E deve ter sido uma alegria imensa dirigir aquele calhambeque. Até hoje a gente vê um Ford daquele e fica encantado.
Meu pai lembrava que, quando criança, em uma viagem, a certa altura passaram por um riacho com o Ford. Única coisa que restou de uma história que não continuou, pois a segunda guerra mundial havia eclodido na Europa em 1939 e o racionamento de combustível e derivados havia chegado ao Brasil. O Ford ficou encostado no quintal, esperando a guerra acabar.
Os anos se passando, a guerra parecia não não acabar mais - acabaria em 1945 - e o Ford virou um poleiro de galinhas. Quando eu era criança - na década de 1970 - ficava indignado com o fato de o automóvel ter acabado daquele jeito, mas hoje a noção da realidade é outra. Uma guerra pode causar transtornos que vão além de ceifar vidas. O que era para ser uma felicidade, se tornou para o meu avô um prejuízo e uma decepção.
Mas nas lembranças de meu pai, o que valia era a recordação de sua cidade natal, de sua infância na antiga e nostálgica Ibitiuva e de sua única viagem com meus avós e tios naquele Ford bigode.
Dailton Martins é leitor da FOLHA





