Sabemos que a colonização do Paraná foi realizada por gente de todas as partes do Brasil e do mundo. No pequeno, simpático e bonito município de Rondon, no Noroeste do Estado, não foi diferente. Certa ocasião chegaram dois primos nordestinos com o sonho da riqueza e de um dia tornarem-se fazendeiros.
Zézito e Abdias. Foram para Gleba Aparecidinha, distante 30 quilômetros da sede. Encontraram todas as dificuldades possíveis. Derrubada a machado das grandes árvores, falta de médicos e estradas, morando nos ranchos de pau a pique e tantos outros desconfortos.
Com o passar dos meses, Abdias disse ao primo que aquilo não era para eles e que deveriam ir para São Paulo. Zézito recusou e disse que iria ficar. Abdias, então, pegou suas coisas, despediu-se do primo e rumou para seu novo destino. Com o passar dos anos, Zézito conseguiu comprar uma pequena chácara de três alqueires.
Com as geadas que castigavam os cafezais, a terra arenosa foi enfraquecendo e os pequenos proprietários migraram para outros destinos, como Rondônia, Mato Grosso e até para as capitais. A região foi se transformado em grandes latifúndios de pastagem, com pouquíssimas pessoas.
Porém Zézito permaneceu na sua degradada propriedade, com um rancho de chão batido, fogão a lenha, mobília paupérrima e solteirão. Tinha umas cabeças de porcos, galinhas, uma rocinha de mandioca e sobrevivia como boia-fria.
Passados anos, chegou à cidade um senhor com a esposa e filhos em um carro do ano, bem vestido, à procura do primo Zézito. No sindicato, após muito trabalho, indicaram ao moço o local onde poderia encontrar o velho primo. Rumando para a Gleba, após muitas perguntas, chegaram de surpresa ao rancho do primo. Alegria de Zézito ao reconhecer o primo e a grande decepção de Abdias com a situação do primo.
A esposa, já injuriada da viagem, não quis descer. Primo Abdias, que havia entrado em uma grande montadora de veículos na capital paulista, subido de cargo e já estava aposentado, exclamou: "Mas, primo, há anos você me escreveu que tinha uma propriedade e estava bem, agora vejo você nessa situação?". Zézito, abaixando a cabeça, nada respondeu. Abdias voltou para o carro e foi embora.
Zézito só reclamou para mim que o primo nem quis tomar um café com ele. Que desfeita moço.

Sidney Girotto é leitor da FOLHA

Imagem ilustrativa da imagem DEDO DE PROSA