Levantar domingo bem cedinho, ajeitar as crianças e pegar a estrada de Pirassununga a Araras era por bons motivos. Não que o trajeto fosse longo, mas agora, mais madura, entendo nossas idas constantes àquela terrinha. Em 30 minutinhos lá estávamos nós e a paisagem era bem bonita, sem contar que não havia pedágios.
Com uma muda de roupa a mais caso algum filho se sujasse, sentisse mais calor ou frio, minha mãe queria encontrar a parentada, dar risada e passar um domingo em família. Na porta da casa do avô da minha mãe havia um pé de cacau e na cidade, uma fábrica da Nestlé. Em comum? Em casa todo mundo é fã de chocolate e eu achava que em um desses domingos iria passear na fábrica de chocolates.
O ritual da casa era sempre o mesmo. As mulheres iam para cozinha e cada uma se habilitava a uma tarefa. Na casa da tia Marinalva não tinha essa de cada um levar um pratinho e nem fazer vaquinha. Ela gostava mesmo era de juntar a família, colocar a mulherada para fazer o que sabe e para as mais tímidas, de pouco em pouco, ia fazendo tomar gosto pela culinária.
A primeira vez da minha tia Rita entre elas foi interessante. Sobrou pra Ritinha - que mal sabia onde ficavam os talheres da casa. Na hora de ajudar, chorou feito bezerra. Deram para ela justo as cebolas para descascar e picar bem miudinho. Disfarçadamente, eu via umas mais experientes se divertirem. Mas não era maldade, penso. Era para dar um temperinho ao domingo.
Lá no canto, dona Arlete debulhava o milho aproveitando bem cada espiga. O trabalho artesanal renderia um creme de milho para os enjoados que não gostavam de macarronada e iam comer arroz, creme de milho e churrasco.
Sim, os homens batiam papo, bebiam e faziam roda em volta da churrasqueira, ainda que o prato principal fosse galinhada. Uns faziam caipirinha e vez ou outra uma mulher socorria. Pegava o palitinho jogado no chão, o papel queimado e as cascas de limão que "enfeitavam" o balcão.
Uma maionese com um tomate feito flor se destacava e as meninas colocavam a mesa. "Faca na direita com corte para dentro e garfo à esquerda", ensinava dona Arlete. Não havia luxo, às vezes o par de talhares não combinava e um prato ou outro quebrava a harmonia visual, mas o clima era muito gostoso e superava as etiquetas mais refinadas.
Os mais velhos se serviam primeiro, as mães ajudavam os pequenos e todo mundo ficava satisfeito. Depois da sobremesa, as mulheres se juntavam de novo para dar conta da louçarada e catar as migalhas debaixo da mesa.
À tardinha, tia Cida fazia bolo de fubá e até hoje não entendo como aquelas formas retangulares, gigantes, cabiam no forno do fogão. Ainda quente, a molecada ficava em volta esperando a vez pra provar o que as tirou da brincadeira e fez correr até a cozinha. No fundo, no fundo, já sabia que
meus pais iam para Araras de caso pensado e por um motivo simples: passar
um típico domingo em família.

Walkiria Vieira é repórter do jornal NossoDia

Imagem ilustrativa da imagem DEDO DE PROSA
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