DEDO DE PROSA
A casa da chácara onde moravam meus avós Mário e Luiza é, literalmente, a casa dos meus sonhos. Não por ter sido uma mansão ou coisa parecida. Mas porque ali vivi minhas fantasias infantis, descobri tanta alegria, tanto afeto, que não conheci em lugar algum, e também porque, muitas vezes, sonho que estou lá e revivo esse tempo feliz.
Era uma casa pequena, de madeira, sem pintura. Na cozinha havia um fogão a lenha pronto para aquecer a vida da gente. Uma mesa, uma prateleira, um suporte com uma bacia para lavar as mãos e duas janelas: uma para o pequeno curral e outra para a horta de verduras, mato e um persistente pé de chuchu a enfeitar a cerca.
Da cozinha seguia um pequeno corredor que dava acesso ao quarto e à sala, com uma mesa antiga e uma cristaleira. No canto, tinha uns sacos de café empilhados, esperando a hora da venda. Da pequena janela se via o jardim onde minha avó plantava flores. As mudas vinham das vizinhas e comadres ou eram colhidas nos jardins e cada uma tinha sua história.
Um pequeno curral abrigava porcos, galinhas e cabras, que eu amava. Os porquinhos eram motivo de alegria, os pintinhos tinham nomes e donos, eu e meu irmão disputávamos quem ia alimentá-los no fim da tarde.
Contornando o cafezal havia lindos e produtivos pés de laranja, tangerina, mexerica, sobre os quais passávamos as tardes empoleirados, rindo e brincando, deixando sempre um gominho para os santos.
Vovô Mário trabalhava na roça até o meio da tarde. Minha avó fazia um bolo de mandioca assado na brasa, café, fervia o leite de cabra e ele vinha, se lavava, tomava o café, punha sua calça de casemira preta, camisa branca de mangas compridas, chapéu preto e o famoso relógio de bolso e ia para a cidade jogar bocha e baralho com os amigos.
A vó Luiza era um doce de pessoa e nos deixava fazer tudo o que queríamos, inclusive deitar na cama levando gatos e cachorros, enquanto ela torrava o café, tarefa que era do meu irmão, mas quem ela poupava para o café não passar do ponto. Contava muitas histórias lindas, além de fatos de sua mocidade, o namoro com meu avô e como gastara a sola dos sapatos dançando tarantela nos terreirões.
Era analfabeta, porém, em minha vida toda, jamais conheci uma pessoa tão sábia. Dava conselhos, era amorosa, entendia e lidava muito bem com a natureza e nunca reclamava, apesar da vida difícil. Vestia-se com um vestidinho estampado, lenço cobrindo os cabelos trançados e presos, desbotados pelo tempo. Um avental completava a figura de origem italiana de nariz fino, olhos verdes e profundos.
Meus avós eram respeitados na cidade e pelos vizinhos. Eu e meus irmãos vivíamos enfiados naquela casa fantástica, onde morava o afeto, a simplicidade e um quê de conto de fadas. Lá aprendemos coisas engraçadas, como ter medo do saci e da mula sem cabeça; coisas boas como rezar, respeitar os dias santos e a nos esconder debaixo da mesa quando chovia. A amar a Deus e ao próximo, a partilhar e a experimentar um amor tão profundo, tão inesquecível, naquele lugar tão pequeno, que era a casa e o coração dos nossos avós.
Estela Maria Frederico Ferreira é leitora da FOLHA






