Nosso pai tinha um sítio na Água da Pimpinela, no município de Astorga. Certa ocasião, ele resolveu plantar mais de mil pés de café. Como era muito caprichoso, preparou a terra virgem e corrigiu com calcário. E nós, irmãos, ainda pequenos, ajudamos a encher os saquinhos de plástico com a terra e depois semeamos. Passados alguns meses já haviam germinado e estavam muito bonitas as mudas. Chegou a hora do plantio. Os funcionários do sítio iam à frente, cavando as covas. Meu pai e outros funcionários plantando e coube a nós jogar o adubo, que era uma medida em forma de meia-lua à uma distância de 50 centímetros do pé. Naquela época, era nosso sonho ter uma bicicleta. Então meu irmão mais velho, Álvaro, nos chamou e disse: "Vamos pedir ao pai para que uma rua dessa de café fique para nós na primeira safra, aí vamos poder comprar não uma, mas três bicicletas, uma para cada um de nós. Se ele permitir, vou fazer uma super adubação em cada pé, que vai produzir muito".
A proposta foi levada ao nosso querido pai, que imediatamente concordou. Mas ele não sabia do plano nosso, encabeçado pelo futuro professor Girotto. Ficamos com uma rua em que tinha um pé de mamão que era para marcar qual seria o nosso café. E lá se foi o mano Álvaro triplicar a dose de adubo, inclusive jogando junto aos pés.
Passados alguns dias, voltamos ao sítio e qual foi a notícia? Os funcionários chamaram meu pai para contar que em uma das ruas do cafezal os pés estavam morrendo, inclusive o pé de mamão. O que estaria acontecendo? Praga? Mudas doentes? Terra contaminada? Ninguém tinha um diagnóstico preciso.
Doutor agrônomo naquela época era difícil, ou praticamente não existia. Até que chegou um senhor baixinho, de pele morena, que se dizia índio, profetizou: "Isto aqui é que há muitos anos atrás um antigo proprietário morreu trabalhando neste lugar. E às vezes ele aparece durante a noite e senta embaixo desse mamoeiro. Muita gente já viu essa alma aqui". E o referido "índio" se pôs a fazer um "trabalho" para afastar o "problema".
Logicamente não deu certo e nós - o Mauro, nosso caçula, e eu - ficamos furiosos, decepcionados com o nosso mano, pois ficamos só na expectativa de ter nossa magrela. Papai morreu muitos anos depois sem saber o motivo da morte dos cafeeiros.

Sidney Girotto é leitor da FOLHA

Imagem ilustrativa da imagem DEDO DE PROSA
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