DEDO DE PROSA
Eu tinha sete anos quando fui pela primeira vez ao cinema. Foi nos anos 60 , quando o cinema era uma das grandes maravilhas, uma vez que nem havia televisão na cidadezinha onde morava; lembro dos cartazes anunciando os filmes famosos da época e seus respectivos artistas.
Foi um grande acontecimento, como sempre. Minha irmã estava namorando, mas só podia ir ao cinema com o namorado se fosse devidamente acompanhada... dos três irmãos. E lá fomos nós, de "lanternas". Lembro-me do cinema, a fila para pegar os bilhetes. O pobre do namorado de minha irmã (nesta noite mais pobre ainda), antes de comprar os bilhetes, olhou para trás e contou: um, dois, três. Três ingressos a mais, só para namorar no cinema.
Entramos na sala de projeção: coisa diferente, deslumbrante. O casal sentou lá atrás, minha irmã do meio sumiu com as amigas, eu e meu irmão fomos para a primeira fila, onde havia outras crianças. O filme, intitulado "Tarzan e as amazonas", era em preto e branco, sendo que antes foram exibidos alguns trailers e um capítulo de um tal de seriado. Para mim, tudo era uma grande novidade: o cheiro de chicletes, o escurinho, o povo gritando quando a luz era apagada ou acesa para o intervalo ou conserto da fita.
Bem no meio da exibição, eis que se forma uma grande confusão lá na frente: o projetor é interrompido, a luz é acesa e o guarda, com a lanterna, chega correndo para separar a briga.
Eu e um menino mais ou menos da minha idade, atarracados, entre unhadas e puxões de cabelo, éramos os protagonistas; apareceu minha irmã, o namorado, o irmão, a outra irmã para apartar a briga, bem como os irmãos do menino. A coisa ficou feia! Defensores de irmãos mais novos são um caso sério! Não me lembro bem do desfecho e se o filme continuou a ser exibido, mas me lembro de algumas amigas de minha mãe, perplexas, me olhando e dizendo: "Mas é você?". Não entendi o porquê.
No outro dia eu estava cheia de marcas roxas e unhadas. Claro que fiquei com medo... da minha mãe brigar comigo. Minha irmã ainda continuava a me defender do moleque ruivo, "enferrujado" (ele tinha sardas) e que viesse a família inteira!
Nada disso, porém, tirou o gosto de minha aventura... E para sempre, mesmo não sendo um cinemascope colorido...
Dias depois, caminhando pela rua, ainda sentia uma ponta de medo de encontrar o menino sardento ou alguém de sua família pelo caminho. Afinal, só me sentia protegida se tivesse alguém de casa por perto...
Estela Maria Frederico Ferreira é leitora da FOLHA






