DEDO DE PROSA

Sempre admirei meu avô. Ele se chamava José, mas era difícil achar alguém que o conhecesse assim. Para todos, do mais ao menos íntimo, ele era o seu Juca. Sempre sorridente, ficava na área de sua casa de madeira e de esquina. De lá, distribuía acenos e brincadeiras. Tudo era motivo para brincar. Sempre respeitando, conseguia fazer com que as pessoas gargalhassem, esquecendo dos problemas e da correria do dia a dia.
Ele nunca frequentou escola, seu pai até o incentivara, mas ele queria mesmo era trabalhar na roça. Carpir, colher café, matar galinha e porco, era assim que aprendia, com a escola da vida. Para quem pensa que ele tinha preguiça, muito pelo contrário. Mesmo nunca tendo frequentado uma sala de aula, sozinho, aprendeu a ler e escrever.
Vô Juca morava no Rio de Janeiro, onde viveu por quase 20 anos. Após mudar-se para o Norte do Paraná com minha vó, construiu casa e família e começou uma nova vida, mas com velhos costumes. Continuou trabalhando no campo, o que para ele era motivo de muita alegria. Nem quando estava doente fugia da labuta, esse era seu ganha pão e passatempo.
Na sua casa de madeira e de esquina, fez um pequeno sítio. Plantou café e fez jus a essa terra vermelha. Era tudo artesanal. A sensação única de ver o cafezal no terreno de casa junto com bananeiras, pés de milho, laranja, entre outras plantações que dividiam espaço com um grande galinheiro, era de simplicidade.
Se não bastasse tudo isso, era religioso e temente a Deus. Cresci ouvindo dele muito do que eu sei sobre Cristo. Lembro como se fosse hoje ele me ensinando os Dez Mandamentos, entre outras orações, dando um verdadeiro e contínuo encontro de catequese.
Via nele um espelho, reflexo de coisas boas como integridade, respeito e honestidade. Adjetivos difíceis de se encontrar nos dias atuais. Desde pequeno pensava em ter um pouco, por mínimo que seja, das suas qualidades. Para reafirmar essa ideia, minha vó dizia e diz até hoje: "Quero que você seja igual o seu avô".
Este ano completa nove anos que ele se foi. Do alto, tenho certeza, olha por mim. Mesmo não estando mais entre nós, suas atitudes e palavras estão presentes, pois quando a pessoa é retrato de moralidade e caráter, mesmo com os defeitos, pois ninguém é perfeito, a vida terrena passa, como muitas outras coisas deste mundo, mas os exemplos ficam para sempre vivos.
Pedro Marconi é leitor da FOLHA





