Tenho uns primos na cidade de Cruzeiro do Sul. Pensa num pessoal bom. Os Brunelli. Lembro de quando era criança e vez ou outra minha família ia para lá de férias. Era uma festa. E quando a gente chegava era uma coisa maravilhosa. A minha saudosa tia Mariana, que era uma pessoa formidável, fazia de tudo para agradar os hóspedes. Lembro que naquela época não havia luz elétrica por ali e quando eu ia dormir sentia um medo enorme do escuro. Ela vinha com o maior zelo e colocava uma lamparina na cabeceira da cama até eu adormecer.
Lá em Cruzeiro do Sul, os primos nos mostravam a região e a gente se divertia com bezerro no pasto, plantação, serviço de roça e tudo quanto era coisa que não tinha na cidade. Tinha até uma prainha. O terreno era de areia e alguém bolou que o pessoal podia se divertir no rio como se fosse uma praia. Deu certo. Tinha sol, areia e água. Para que mais? Era uma praia de água doce. E ia gente de toda a região.
Meu tio João e meu tio Ermelindo, pioneiros da região, moravam muito perto um do outro. Era só atravessar uma cerca. Quando a gente saía de uma casa, ia para a outra, quando comíamos numa casa, depois comíamos também na outra. Primos e primas de quem guardo as melhores lembranças. De noite, a gente sentava na varanda para contar e ouvir histórias. Eram memórias trazidas de longo tempo por nossos pais. Às vezes, coisas que aconteciam por ali e eram de espanto. Naquela época a gente ainda se espantava com algumas coisas, hoje, o Google estragou tudo.
Não havia acontecido a geada negra de 1975 ainda e na região eu via muito algodão. Não me lembro bem o que mais eles plantavam, mas meu pai conversava muito sobre essas coisas com meus tios, enquanto eu aproveitava os dias de férias vendo as vacas e as ovelhas. O céu era muito limpo e dava para ver as estrelas longínquas. Vimos várias vezes meteoros que caíam e de repente desapareciam na atmosfera. Ficávamos um tempão conversando enquanto procurávamos as estrelas do Cruzeiro do Sul naquele céu que dava nome à cidade e ainda existe na bandeira do Brasil.
Uma gente trabalhadora, que quando chegou ali fazia sua casa com trançador. Hoje, as pessoas nem sabem o que é isso. Mas foi uma ferramenta muito usada pelos desbravadores. Fizeram a sua história de trabalho com recursos escassos, formaram seus filhos e alguns dos que ficaram ainda enobrecem com sua labuta o progresso daquela região ao lado de tantas famílias que vão de sol a sol às lavouras. Alguns se mudaram, mas o coração sempre ficou ali, eu sei. Boas lembranças daquela gente, de sua alegria em nos receber e hospedar. Era uma alegria visitá-los. Nas minhas lembranças, Cruzeiro do Sul é o melhor lugar do mundo.

Dailton Martins é leitor da FOLHA

Imagem ilustrativa da imagem DEDO DE PROSA
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