DEDO DE PROSA
Nasci e fui criada na zona rural, na secção Palmital, no município de Assaí, no Paraná. Me lembro com muita saudade da minha infância simples mas feliz, quando morávamos numa casa de madeira enorme, de chão batido, mas limpa e arrumada, com sete quartos, cozinha e sala espaçosas e duas despensas. O banheiro era num cômodo fora de casa com "ofurô", que era um tambor de 200 litros onde a água era esquentada à lenha.
A família era composta por meus avós paternos, meus pais, eu e mais cinco irmãos. Um momento inesquecível foi quando a luz elétrica foi instalada no ano de 1962. Ficávamos apertando o interruptor, acendendo e apagando a lâmpada até sermos repreendidos por um adulto.
O que lembro com saudades é quando íamos para a escola, que ficava distante 4 quilômetros, a pé. Nem por isso faltávamos. No período da tarde íamos para a escola japonesa e também estudávamos no sábado.
Minha mãe levantava muito cedo para preparar as marmitas - naquela época não havia merenda gratuita -, que levávamos junto com os materiais numa bolsa feita com capricho, bordada à máquina e personalizada para cada um de nós pela minha mãe.
Aos domingos e durante as férias escolares íamos todos para a roça trabalhar, como era de costume naquela época. Novamente minha mãe, muito criativa, preparava as marmitas com o que se colhia no sítio, onde comíamos todos juntos, sentados no chão, numa sombra que meu pai limpava para nós. A água era levada numa moringa de barro e muitas vezes era preciso repor e um de nós precisava voltar para a mina para reabastecer. Isso mesmo, a água que utilizávamos era de uma mina onde tinha um tanque e uma bomba rústica denominada takobozu (em japonês), que funcionava com a própria força da água.
Lembro ainda do pomar ao redor de casa onde saboreávamos as frutas, mas sem desperdício, e uma parreira de uva niagara que nos finais de ano vendíamos para a vizinhança e o dinheiro era dividido entre nós, irmãos.
Todos os finais de ano ficávamos felizes, pois era somente nesta época que ganhávamos roupas novas, calçados e um "presentinho". E a alegria era completa quando bebíamos refrigerantes numa garrafinha na qual furávamos a tampa de metal com um prego para poder saborear, aos poucos, aquela bebida que achávamos uma delícia.
Enfim, tenho meus pais como um exemplo de vida - senhor Fukashi e dona Etsuko, 90 e 84 anos, respectivamente -, e este ano irão completar 65 anos de casados, pois mesmo com toda a dificuldade daquela época, nunca reclamavam e nem discutiam na nossa presença. Sei que a vida não era fácil, apesar disso, tenho muitas saudades da minha querida infância.
Tieko Miyabe Utiamada é leitora da FOLHA






