DEDO DE PROSA
Certas imagens, cheiros e tempos costumam povoar nossa mente. E quando algum detalhe vem à tona, um vendaval de lembranças chega para nos fazer voltar a um tempo, um cheiro, uma imagem, uma página importante da vida. Isso acontece comigo sempre que chega o Domingo de Ramos.
É o início da Semana Santa, na Igreja Católica, trazendo uma liturgia rica, cheia de símbolos, celebrações e sinais de fé. Mas quando a gente é criança, tudo é muito mais simples, a vida é pura novidade, imagem, movimento, cheiro, sentimento. É a isso que me remete o Domingo de Ramos, com sua procissão verde pelas ruas e o retorno à Igreja...
Eu tinha mais ou menos uns sete anos e amava ir à igreja, sozinha mesmo, pois minha família não tinha esse hábito. Morávamos perto e quando o sino repicava uma, duas vezes... ao terceiro sinal, a missa começava. Eu estava lá!
A lembrança é bem nítida: entre o cheiro de alecrim, arruda, malva e mil outras ervas e ramos, o espetáculo que mais me fascinava eram as verdadeiras obras de arte feitas de folhas de palmeiras, umas pequenas e delicadas, outras enormes, fitas verdes entrelaçadas em forma de folhas, corações, leques, figuras de santos... Que coisa linda!
Entre cantos e orações, após caminhar em procissão pelas ruas, entrávamos na igreja. Não me lembro de nenhuma oração, nem mesmo da liturgia do dia, apenas de umas mulheres vestidas de preto (era Quaresma) com os cabelos trançados semelhantes aos ramos e um canto, ou melhor, uma palavra em especial. Apertada entre os fiéis, ficava emocionada com toda aquela festa, aquele desfile de tranças e folhas.
Um tanto franzina, sem ter me alimentado direito no café da manhã, invisível no meio da multidão fervorosa que cantava e gritava "Hosana", eis que tudo começa a girar à minha volta. Aquele cheiro de ervas, os ramos sendo agitados, as obras de arte raspando sobre minha cabeça... Saio correndo da igreja, sem enxergar direito o caminho, volto para casa e me jogo na cama. Suando frio, um zumbido na cabeça e o som do "Hosana" ao longe. A tontura passa logo. Era Domingo de Ramos, começava a Semana Santa. Logo seria a Páscoa da Ressurreição de Jesus, uma festa alegre, em família, regada à guaraná e macarronada com azeitonas, meu avô Mário tomando vinho tinto de garrafão e...bem, isso é uma outra história, para uma outra ocasião num bom dedo de prosa!
Estela Maria Frederico Ferreira é leitora da FOLHA





