Tínhamos um sítio em Jaguapitã e um vizinho, o seo Luiz, um mineiro de baixa estatura, magro, pele bem queimada do sol e somente com dois dentes na frente, um embaixo e outro em cima. Era motivo de gozação da rapaziada, que dizia que um dente era para doer e o outro para abrir garrafa, o que deixava o velho Luiz bravo.
Ele se autodenominava "ténico" do time do Taquara E.C., time da fazenda da redondeza. Aos domingos, após o almoço, todos iam para o estádio "Majestoso da Peroba", como era conhecido o campo de futebol. Aliás, eram poucos os espaços no campo onde tinha grama, o resto era terra. Antes do início dos jogos, os "atletas" tinham que retirar os estrumes das vacas, pois o campo, durante a semana, servia de pasto para o gado.
Durante o jogo, o seo Luiz ficava na beira do campo agitado, gritando e gesticulando com seus pupilos, orientando a equipe. Mas os jogadores não estavam nem aí com ele. No final da partida, seo Luiz recolhia todo o uniforme dos jogadores, que era o único patrimônio do time e foi comprado com muito sacrifício por meio de bingos e das vendas de doces, cervejas e tubaínas na beira do campo. Após ensacar o uniforme, ele levava para casa, para a sua esposa, dona Vera, lavar.
Aliás, dona Vera era uma mulher de seus 40 anos, pele clara, olhos azuis com descendência italiana. Certo dia, dona Vera engravidou e minha mãe foi visitá-la. Chegando lá foi dizendo: "Mas Vera você já tem sete filhos, porque engravidar?" Seo Luiz, lá da cozinha, respondeu: "Ah, dona Rina, essa mulher não se cuida". Minha mãe respondeu: "Mas não é só culpa dela não, é do senhor também" e aí minha mãe perguntou: "E como vai chamar o bebê?" Seo Luiz, já na sala, disse: "Alan Moisés se for homem".
Minha mãe quis saber de onde eles tinham tirado o nome. O velho mineiro foi logo dizendo: "Alan do corredor de carro (Alan Prost) e Moisés do homem da ‘talba’". Minha mãe falou: "Ah, Moisés é personagem bíblico, das tábuas dos dez mandamentos".
Seo Luiz disse: "Não senhora, Moisés é o nome do homem do caminhão que trouxe as "talbas" para fazer o galinheiro.

Sidney Girotto é leitor da FOLHA

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