DEDO DE PROSA
Lendo a FOLHA soube de um projeto para construção de uma linha férrea no Norte do Paraná, ligando Ibiporã a Paiçandu, passando por Londrina, Cambé, Rolândia, Arapongas, Apucarana, Marialva, Maringá, entre outras cidades. O projeto se chama Trem Pé Vermelho. Além de um avanço no transporte de passageiros, será uma atração turística, a exemplo do que ocorre em outras regiões do Brasil.
Isso me fez lembrar as viagens da minha infância, quando as famílias do interior do Paraná, da roça e da cidade, iam de trem visitar parentes em cidades de Minas Gerais e São Paulo. Às vezes os pais iam sozinhos, noutras levavam apenas um dos filhos, por causa das despesas. Mas nos anos de fartura nas lavouras de café viajava toda a família. Nas vésperas das viagens, as crianças ficavam eufóricas, imaginando o que seriam o trem misto, o noturno, a primeira classe, a baldeação, coisas que os adultos falavam.
A chegada da composição nas estações era um grande espetáculo. O chefe da estação tocava um sino, anunciando a parada do trem, e de longe a locomotiva anunciava sua chegada, através do inconfundível apito, da fumaça e do barulho das rodas sobre os trilhos. Na partida, os passageiros se alvoroçavam na plataforma, ajeitando malas e volumes, crianças pulavam de alegria.
Numa viagem conheci o senhor João Francisquini, que era guarda-freios da rede ferroviária e tentava me explicar o funcionamento do trem, o trabalho dos maquinistas, detalhes da viagem e das cidades em que passávamos. Eu não prestava muita atenção na sua fala, envolvido pelas paisagens, pontes e túneis. Era bonito observar quando os trabalhadores das lavouras às margens da ferrovia paravam de trabalhar e, descansando um pouco da enxada, acenavam para o trem que passava. Muitas descobertas a cada curva e nas dezenas de estações, até se chegar a Ourinhos, mas nada comparável à beleza da estação ferroviária de Londrina.
As famílias ricas almoçavam no vagão restaurante, enquanto as mais humildes tiravam do embornal seus biscoitos, sanduíches e coxas de frango assado. Em seguida, vinha o chefe do trem, de banco em banco, picotando as passagens.
Eram viagens lentas e cansativas que estimulavam conversas e trocas de gentilezas entre as famílias. Quem sabe se concretizado o projeto, o trem pé vermelho possa resgatar o convívio amigável e civilizado entre as pessoas...
Gerson Antonio Melatti é leitor da FOLHA






