Estávamos em meados da década de 60. Cidade muito pequena, vida simples, porém, sem muita desigualdade social. Um colégio para todos, praticamente uma única igreja, uma praça. As casas, modestas. Nossa família, três irmãs e um irmão, a mãe viúva. Era uma família feliz, aconchegante, unida. Qualquer fato era motivo de compartilhar, sorrir, tudo era novidade, principalmente para mim. Mas, naquela rotina, aceita como o que tinha de melhor, pois não tínhamos outra, surge uma grande novidade: minha mãe compra um jogo de sofá!
Parece pouco, mas o que se via nas salas das casas era uma mesa com cadeiras, uma toalha bordada, vaso com flores de plástico, quando muito, uma mesa que "crescia" - mesa embutida. Voltando à novidade: foi um acontecimento. Para mim, o maior da minha vida! Preparamos a sala. Enceramos o chão, passamos escovão para dar brilho, levamos a mesa (coisa antiga!) para a cozinha.
O jogo de sofá chegou! Que alegria, que maravilha! Era rosa, de plástico grosso e forrado. Duas poltronas bem pequenas, um sofá grande (não chegava a ser sofá-cama) e, acompanhando, uma mesinha de verniz, duas cores, perninhas de ferro abertas (tipo vintage) que me deixou mais encantada ainda. Depois de arrumada a sala, sentei-me no chão a contemplar aquela visão de modernismo e beleza!
A impressão que tive é que toda a cidade ficou sabendo. E vinha ver. Eu nem gostava que entrassem pela porta da sala, para não sujar. Até dona Ana Preta, uma senhora do sítio que sempre vinha em casa, falou boquiaberta: "Hum! Mofá novo?" Como ela costumava perguntar de meu irmão gêmeo, já achamos um motivo para caçoar dele. E ele, de correr atrás de nós, chamando a mãe.
Minha irmã mais velha estava de namorado novo e o ex, enciumado, mandou um cartão de crítica (muito usado na época, tipo charge), no qual se via um casal namorando em cima de um piano, devidamente riscado e dizendo: "Até que enfim o sofá tem alguma utilidade".
Numa época sem consumismo exacerbado, ter um jogo de sofá era motivo de felicidade, além de status.
Com o tempo, outros jogos de sofá vieram. Fogão a gás, água encanada, luz elétrica, mas a história do primeiro sofá ficou marcada para sempre na memória. Apesar de todas as modernidades, não é possível ter a mesma sensação, gosto de infância, amor em família, um mundo imenso, uma grande aventura para desvendar: a vida!

Estela Maria Frederico Ferreira é leitora da FOLHA

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