Imagem ilustrativa da imagem DEDO DE PROSA
| Foto: Ricardo Chicarelli



Sempre me perguntei o que faz uma pessoa plantar uma árvore. Comer os frutos, investir numa sombra futura ou ser lembrado na posteridade? Quem sabe, talvez, as três coisas ao mesmo tempo. Lembrei de uma história em que um chinês idoso plantava à beira de uma estrada uma árvore enquanto um fidalgo passava de liteira. O nobre riu-se dele por plantar uma árvore da qual não comeria os frutos por ser tão idoso. E o velho chinês, como bom sábio das histórias antigas da China, disse-lhe que embora não pudesse comer dos frutos, outras pessoas poderiam fazê-lo. O nobre calou-se envergonhado e seguiu seu caminho.
Hoje vemos desmatamento por muitos lugares, as pessoas cortam árvores como se não se fossem precisar delas no futuro. As árvores parecem estar deslocadas de nosso meio, parecem que invadem nossas calçadas e atrapalham tudo nos dias de chuva, entupindo calhas e bueiros, caindo sobre os carros e se enfiando pelas alturas das redes elétricas. Algumas, querendo chegar às redes de alta tensão, são podadas cirurgicamente pela companhia de energia.
Mas, na verdade, não seria o homem que estaria invadindo o campo que agora é cidade? As árvores nos dão muito a refletir. Uma árvore no sítio é para alimento e outra é para dar sombra num dia quente. Na cidade, uma árvore é só para dar sombra. Imagine um pé de manga na Avenida Higienópolis, com manga madura caída em horário de rush.
A questão do bom senso na hora do plantio da árvore deve ser fator primordial para a convivência pacífica entre o homem e o que a natureza lhe pode oferecer. Uma árvore plantada vai eclodindo vida até a exaustão, pois a natureza é voltada à vida e se desenvolve sem pedir licença. Procura luz e sobe até as redes elétricas, procura água e vai quebrando calçadas, derrama folhas e flores para todo canto, dá abrigo a aves de toda índole e cai quando as raízes já não aguentam mais.
A convivência pacífica entre o homem e a natureza depende de uma boa dose de bom senso. Como nós invadimos áreas que antes eram ocupadas por plantas e insetos nativos é bom que saibamos que há uma reação da natureza a favor de repor o que foi perdido. E como o homem já tomou posse daquele espaço, fica a guerra da humanidade em permanecer em um espaço que inicialmente não era seu. Então, é preciso pelo menos minimizar os problemas dessa ocupação e se o homem é realmente inteligente, haverá harmonia em suas ações. Uma árvore é sempre um exemplo que fica, dá frutos, dá sombra e, quando morre, ainda dá lenha.

Dailton Martins é leitor da FOLHA

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