DEDO DE PROSA
A casa da vó Leninha, onde passo todos os fins de semana, já foi um pequeno pedaço da zona rural da cidade. Pés de café, bananeira e árvores de frutos diversos, além de um grande galinheiro, nos davam a chance de ter tudo mais perto e caseiro. Mas com o tempo e os percalços da vida, o que sobrou foram apenas os pés de banana, que são divididos até hoje entre a família e os vizinhos.
Certo dia, um animal que no passado teve seu espaço na casa de minha avó, voltou. Só que dessa vez em menor quantidade. Tínhamos um cachorro, Bethooen, que em uma noite como outras, começou a latir muito e deixou todos desconfiados do que poderia estar acontecendo.
Procurei o lugar onde Bethoven latia e me deparei com um animal que, certamente, não estava em seu habitat, uma galinha. Meu pai a pegou e a prendeu em um canto da casa. Ao amanhecer fomos atrás do dono, mas não encontramos ninguém. Então, indaguei minha vó sobre o que faríamos, e ela disse que não iria matar o animal. A decisão foi uma só: ficar com a galinha e cuidar dela.
A batizei de Tilápia. O porquê do nome até hoje não sei, só sei que gostei, já que era diferente. Aquele animal magro e pequeno foi crescendo e engordando. Após alguns meses, tivemos uma grande surpresa. A Tilápia não era uma galinha e sim um galo. Quando descobrimos, a risada foi inevitável, pois todos pensavam se tratar de uma fêmea pelas suas características.
Bethoven morreu e o galo Tilápia passou a ser o "cão" de guarda da casa. Vivendo na cidade, não se alimentava de milho e nada do tipo, pelo contrário, tudo que comíamos perto dele teria que ser dividido, desde arroz e feijão, até chocolate, sorvete e bolachas.
Ele virou a atração da vizinhança, as crianças e adultos quando passavam, paravam para ver o galo, que virou de estimação. Gato ou cachorro quando chegavam no portão, logo corriam, pois Tilápia os espantava.
Como todo bom galo, ele cantava logo pela manhã. No começo, todos ficamos bravos, pois acordávamos mais cedo que o habitual, mas logo nos acostumamos a conviver com um pouco do amanhecer do campo na cidade.
Literalmente, o galo era diferente, tinha nome de peixe, alimentação de gente e criação de cachorro. Mas o importante era e é - já que até hoje está ciscando pelo quintal de casa - o tratamento que recebia e a certeza de que a cidade pode mudar muitas coisas, mas não a sensação de viver com o modesto, no meio do moderno.
Pedro Marconi é estudante em Londrina





