No sítio, sempre que se ouvia o ronco daqueles monstros alados de metal a gente voltava o olhar para o céu e fazia apostas sobre quem os localizaria primeiro no infinito azul. Os aviões causavam medo e deslumbre. Mas quando me vi lá em cima, já adulto, tentei encontrar aquele menino que eu era lá embaixo. E foi surpreendente.
Apertado na poltrona do avião, quando girei o olhar em direção ao horizonte possível de ser observado através da pequena ventana lateral senti sensações muito diferentes daquelas que experimentava naquela minha zona de conforto, aqui ao nível da terra. Tomei coragem e comecei a investigar as coisas.
Do alto, a fofura das nuvens penetrava ainda mais fundo em meu olhos curiosos e meio medrosos por estarem aprisionados a milhares de metros do chão. O coração ressabiado de explorador iniciante batia desregrado: veloz quando eu caía na real; tranquilo quando eu me permitia só voar.
Comparei em meu pensamento que o que eu via lá do alto era igual à vista dos passarinhos mais corajosos que apareciam pelas bandas do sítio. Eles subiam, subiam, subiam... até virarem um pontinho no céu e depois despencarem numa louca aventura controlada pelos seus instintos mais primitivos. Eu não podia cair quando quisesse, mas voava sem ter asas.
Lado a lado com as nuvens, os desenhos produzidos pelos milhões e milhões de minúsculas gotículas de água reunidas pareciam mágicos. Quando os delicados chumaços branco acinzentados tinham formas abstratas eu me sentia pertinho do céu. Quando imitavam a vida, eu achava graça e queria brincar.
E a terra... Observando de cima, tudo parecia paralisado no tempo. Nada se movia. Nem as corredeiras do majestoso Tibagi metiam medo. Reparei bem que a água estava imóvel, congelada pela distância. Naquele dia claro e ensolarado, o espelho criado pelo sinuoso curso do rio repartia o sol em incontáveis raios, que só sumiam de vista quando as nuvens escondiam a luz. As estradas fininhas costuravam e uniam os quadrados das plantações, pastos e pequenos pedaços de natureza.
E aquele menino que eu havia encontrado lá em cima começou a partir de mim quando o comandante informou que meu destino final estava próximo. O céu e as nuvens voltaram para as alturas e meus pés se firmaram novamente no chão onde cresci.

Luciano Augusto é editor no NossoDia

Imagem ilustrativa da imagem DEDO DE PROSA
| Foto: Marcos Zanutto
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