DEDO DE PROSA
Foi ao supermercado e saiu reclamando: "Coisa de louco, gente, com que preços estão essas hortaliças e o tomate, então? E a cenoura, que eu nem gosto, mas dizem que faz bem para as vistas. Quer saber? Vou fazer uma horta lá em casa. Vou economizar."
Dito e feito. No dia seguinte, comprou uns tijolos, um saco de cimento (que não deu nem para o começo) para fazer uns canteiros bem feitos, colher de pedreiro, areia, cal, uma enxada que não deve faltar em horta nenhuma e mãos à obra na empreitada rumo à economia.
Mexeu e remexeu a terra no fundo do quintal, onde sua mulher tinha plantado umas flores que havia trazido da casa da mãe e fez aquela sujeira.T erra e torrões de barro foram se introduzindo nas áreas calçadas. A mulher só olhava o serviço do marido mas não adiantava falar, quando botava uma idéia na cabeça era melhor deixar cansar. Depois dos canteiros e a massa pronta, fez tudo bem arrumado, com direito a tabuletas pintadas com o nome das hortaliças e tudo mais. Para o tomate, fez umas armações e pronto, a horta estava a seu gosto.
Foi atrás de sementes em lojas especializadas, comprou insumos e viu que precisava ver a época de cultivo de cada hortaliça, além de adubo para corrigir a terra, esterco apropriado e já curtido para remexer com a terra e tudo mais.
Plantou tudo nos conformes. O tomate começou que era uma beleza. Já estava sonhando com uma beleza de florada do pé, quando viu uns bichos esquisitos andando sem a sua permissão naquele pé verde e florido.
Era um tal de pulgão. E foi ver o que passava no intruso. Enquanto demorou para passar o defensivo, o pé de tomate foi murchando. Resultado: teve que plantar outro pé.
Levantava de manhãzinha e antes de ir para o trabalho aguava com a mangueira a sua horta dos sonhos. Parecia já ver as salsinhas, as cebolinhas, os tomates, os almeirões, as rúculas, as couves, enfim, todas as hortaliças que comprara em forma de sementes na loja de um vizinho seu que "sabia de tudo" sobre horta (mas sempre o via no mercado comprando os vegetais). Certa vez perguntou a ele se não tinha horta em casa e ele lhe disse que embora tivesse as sementes, não tinha muito espaço em casa. É o álibi, pensou.
Certo dia, recebeu a conta de água do mês. Ficou estarrecido com a elevação do consumo e o valor. Olhou para a horta, desligou rapidinho a torneira, fez as contas de cabeça do que tinha gasto e disse para si mesmo: "Última safra!" E foi com a lista de compras feita pela patroa no mercado da esquina.
Dailton Martins é leitor da FOLHA





