Êta tio Jorge!!! Era irmão do meu saudoso pai. Um tio magro, ligeirinho, simpático e sempre com um sorriso estampado no rosto. Gostávamos de ir passar fins de semana em seu sítio. A tia Emília e os primos tinham um grande carinho por todos nós, o que nos deixava muito felizes e à vontade.
Quando avisamos que iríamos visitá-los, a tia já preparava doces de leite, de mamão, de abóbora, escolhia os frangos para as refeições e a macarronada não podia faltar. A tia e a nossa mãe, após o jantar, sentavam na sala e permaneciam até altas horas colocando as conversas em dia.
Mas voltando ao tio Jorge. Ele tinha um problema: gostava de contar uns "causos" difíceis de acreditar. Quando contava um desses "causos", meu querido pai o repreendia e o tio só ria.
Pois certa vez fomos visitá-lo nos arredores de Arapongas. A locomoção era mais complicada, então pegamos o trem na estação aqui de Londrina e fomos. Passamos por Cambé, Rolândia, Ceboleiro até chegar a Arapongas, onde o tio nos esperava com sua charrete.
À noite, após o jantar, estávamos todos na grande varanda, à luz de um lampião a gás, quando o tio começou a contar um dos seus "causos". Disse: "Sabe mano, não lhe contei que fui a uma romaria, anos atrás, na Aparecida do Norte e lá comprei um relógio de pulso. Dias depois estava na roça trabalhando e me deu uma forte dor de barriga que suava frio. Fui perto de um arbusto e, como a situação estava "russa", até o relógio me incomodava. Tire-o e o pendurei num galho do arbusto. Sai, esquecendo o relógio, e fui para casa. No outro dia, dei conta que havia perdido o relógio. Campeei por todos os cantos e não encontrei o danado. Tinha muita estimação por ele, pois tinha sido benzido na Aparecida. Passado algum tempo, para minha surpresa, estava trabalhando na roça e ouvi um tic tac. Olhei para cá, para lá e quando olhei para cima, vi o relógio pendurado no galho. Como já havia passado tempo, o arbusto cresceu. Subi e apanhei o relógio que, para minha surpresa, estava funcionando perfeitamente e em ponto".
Meu pai, então, perguntou: "Mas quem dava a corda no relógio?"
"Ah mano, nem te conto, pois, tinha um galho que quando batia o vento esfregava no botão da corda e ..." E o tio se escangalhou de rir. Esse era meu querido o tio Jorge.

Sidney Girotto é leitor da FOLHA

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