DEDO DE PROSA
Como todo fim de semana, sábado é dia de ir na casa da Vó Leninha. Casa simples, de esquina e de madeira. Na varanda ela está, para se refrescar do calor, com os ventos que soam. Me vem a vontade de saber o que fazia quando era mais nova, já que hoje tem 82 anos. E me atrevi a perguntar. A resposta vem logo em seguida. Sem pestanejar, me contou tudo até chegar onde está hoje.
Morava em Sodrelândia, no Rio de Janeiro, tinha muitos irmãos e vivia em um sítio simples. Lá, acordava cedo para trabalhar na lavoura. O almoço era em família: pai, mãe e irmãos, todos juntos na mesa para comer o que eles mesmos plantaram e cultivaram. Quando tinha 20 anos mudou-se para Ibiporã, com meu avô, que já faleceu, em busca da terra vermelha, que diziam ser a melhor para plantar café.
Assim como no Rio de Janeiro, trabalhava no sítio. Aqui nesta terra, colhia o café. Nas palavras, ela frisava que era com as mãos, diferentemente da tecnologia que existe hoje. Almoçava o que levava, já que não conseguia mais ir para casa comer, mas o hábito de se alimentarem todos juntos não mudou, só que agora o faz com o marido e os novos amigos que fez.
Depois de colher, ainda tinha que secar, rastelar, para tirar a sujeira e as folhas, moer e, por último, torrar aquele café colhido com tanto esforço.
E se o trabalho no sítio não bastasse, tinha que lavar roupa para os outros, para assim ajudar na renda. Só que tanque era artigo de luxo e qualquer rio que achasse, era a sorte de ter mais um lugar para enxaguar as roupas.
Tanto trabalho e esforço dela e de meu avô, ela contou, valeu a pena. Compraram uma casa, com um terreno grande, em Ibiporã. O trabalho na roça foi deixado de lado, já que a cidade cresceu. Mas o gosto por plantar e colher não foi esquecido. No terreno da casa, tinham pés de café e bananeiras para todo o lado. A modernidade que chegou não atrapalhou a vontade de tomar aquele cafezinho caseiro.
O tempo passou, meu avô faleceu e os pés de café tiveram que ser cortados, pois já não tinha mais quem colhesse. Sobraram os de bananeira, pois esses são mais fáceis de cuidar e até hoje saboreamos seus frutos.
O calor que fazia, nem me lembrava mais, pois fiquei vidrado nas palavras que minha vó dizia, e percebi o quanto lutou para chegar até aqui e conquistar o que tem. Para ela, nada era tudo, e hoje em dia, tudo é nada. Talvez seja esse o segredo para ser feliz: a simplicidade.
Pedro Marconi é estudante de jornalismo





