DEDO DE PROSA
Todo fim de ano, era tradição: os dez filhos de minha avó, dona Luzia, se programavam para ir para Getulina. Era a oportunidade de os irmãos se reverem, as cunhadas colocarem as fofocas em dia e todo mundo reparava no quanto as crianças cresciam e mudavam, ano após ano. Afinal, era um encontro anual.
A maioria chegava antes do Natal e só ia embora depois do Ano Novo. Para acomodar tanta gente, vó Luzia emprestava colchões, mudava as coisas de lugar e sempre conseguia dar aconchego a todo mundo. A copa e a cozinha viravam dormitório, nem sempre marido e mulher conseguiam dormir juntos, a casa ganhava jeito de alojamento, com direito a quarto só para a ala feminina. Saía ano, entrava ano, havia um bebê de colo no Natal, e ano seguinte, era comum as crianças pequenas não se lembrarem dos tios nem dos primos.
Mas nada que um dia de convivência não reaproximasse a família. O Natal não seguia tradições comerciais e para a matriarca que conhecia o gosto do que era passar fome, o importante era uma mesa farta e que ninguém ficasse de barriga vazia. Além das malas, muitos dos filhos traziam o bagageiro cheio de compras, mas a "vaquinha" corria solta dia a dia. Filhos e noras corriam na carteira e nas bolsas para reforçar o almoço ou jantar. Tia Nita, a irmã mais velha, era quem agitava a cobrança, feita sempre de modo divertido e consciente.
Foi ela também que lançou a moda da boquinha, uma refeição feita fora de hora. O pão chegava bem quentinho da padaria e a manteiga derretia sobre cada fatia. Um pote era pouco e além de café com leite, sequilhos faziam a alegria dos pequenos. Na cozinha, a mulherada toda ajudava. Tinha dia de galinhada, churrasco, arroz de forno bife a role e até dobradinha.
Com tantos filhos, vó Luzia sabia da diversidade de paladares de suas visitas, até porque cada filho foi morar num canto do País e conheceu novos sabores. Mas nenhum deles abria mão do arroz branquinho da mãe, que era soltinho de desafiar as noras. Quando sobrava um tempo, a vó ia sovar um pão. E de manhã estava feita a surpresa. Sobre a mesa, assadeiras cobertas com panos de prato davam bom dia a cada um que ia acordando. Dava para ver que a vó ficava meio cansadinha, mas feliz de reunir os filhos, ver todos bem criados, com saúde e quando ia chegando o dia de cada um ir embora, ela chorava no portão, e ficava lá, de pé, até que o carro fizesse a curva. A casa vazia ficava triste, mas a vó falava que o ano voava e logo todo mundo estaria lá, fazendo aquela bagunça gostosa.
Walkiria Vieira é repórter do NossoDia





