Ficar doente na infância tinha pelo menos uma vantagem: era uma das poucas situações em que tínhamos direito a comer frutas diferentes, que nunca nos eram oferecidas na dieta simples do dia a dia. Aquele era um tempo em que maçãs, peras, morangos, uvas, pêssegos e ameixas eram encontrados apenas em frutarias e supermercados de cidades maiores. A nós, da pequena cidade do interior paulista, sobravam apenas as espécies "caipiras": goiaba, manga, mexerica, laranja, mamão, abacaxi, banana, pitanga, jabuticaba. E como estas existiam em abundância, achávamos que eram menos nobres, embora deliciosas.
Por muito tempo, associei o perfume das maçãs e peras que chegavam envoltas em seda azul, pelas mãos de tias mais abastadas, a alguma enfermidade. Produzidas em terras frias e distantes (daí o preço nada atrativo, na época), saboreá-las era um verdadeiro luxo, permitido apenas a quem estava "enjoadinha" na cama.
A primeira vez que vi um pé de maçã carregado de frutos, no distrito de Guaravera, já adulta e morando em Londrina, realizei um sonho antigo.
Mais tarde outras emoções seriam vividas, entre elas as de poder caminhar sob um teto feito de cachos de uvas ou por entre os pés de girassol em flor da pequena propriedade que apostava na diversificação de culturas. Neste caso, a sensação foi de nostalgia: a única lembrança que tinha até então das grandes flores amarelas era a deixada por um antigo filme, estrelado por Sophia Loren e Marcello Mastroianni, um dos poucos que fizeram meus pais saírem de casa e pegarem a estrada para ir ao cinema na cidade vizinha. Não sei como permitiram minha entrada à sala de exibição, nem exatamente que idade tinha, mas devo ter assistido a "Girassóis da Rússia" no colo de algum adulto. Desde então, as gigantescas margaridas exercem fascínio sobre mim.
Conhecer pequenos produtores e as tecnologias que os permitiam produzir as belezas e delícias de minha infância foi uma das experiências mais gratificantes da vida de repórter. Mas melhor que isso é encontrar no mercadinho da esquina todos os sabores e perfumes a preço acessível. Aqueles pêssegos, maçãs, uvas e morangos que povoavam minha imaginação infantil hoje estão à nossa mesa com a mesma naturalidade que uma simples laranja, graças às novas tecnologias e ao empenho do homem do campo. Motivo de comemoração, para quem um dia dependeu da visita das tias para saboreá-los.

Silvana Leão é jornalista na FOLHA

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