Dedo de Prosa
Cudiguim
Encontrei na rua há pouco tempo atrás um antigo colega de escola e começamos a relembrar algumas coisas dos tempos de estudante. O que me surpreendeu foi o fato de ele se lembrar de algo que eu já havia me esquecido e que eu mesmo havia lhe dito. Disse ele que certa vez, na saída da aula, já quase hora do almoço, eu lhe dissera que estava ansioso para chegar em casa porque naquele dia tinha cudiguim. Era um prato que sempre apreciei, que gosto até hoje e me enche a boca d'água.
Depois fiquei pensando sobre aquilo. Minha mãe sempre fazia aquela verdadeira iguaria quando voltávamos do sítio de minha tia, irmã dela, lá no Bratislava, um patrimônio de Cambé. Aliás, vínhamos de lá com o carro abarrotado de mandioca, abóbora, legumes e frutas. Meu irmão, muito gozador, perguntava quando chegávamos em casa: "O que é isso, gente, hoje fizeram a feira?" E dizia que algum dia meu primo Zé nos expulsaria do sítio quando nos visse chegar pra visitá-los. Até hoje nunca aconteceu. Mas na verdade eles é que nos ofereciam as coisas e de bom grado aceitávamos, ainda deixando muita coisa para trás. Mas meu irmão insistia na brincadeira: "Que exploração!" E junto com a feira vinha o cudiguim. Minha gula. Chegávamos em casa e já sabia que no outro dia, no almoço, haveria cudiguim no meio do feijão. Não se faz na janta porque não é muito leve.
Só faltou eu explicar o que é um cudiguim. É como uma linguiça, mas o recheio é de couro de porco bem temperadinho com alho, sal, pimenta. Depois, coloca-se um bom pedaço no meio do feijão cozido, faz-se alguns furinhos nele e cozinha-se por uns 15 minutos. Tendo o cuidado de não cozinhar demais senão ele desmancha todo e fica parecendo carne moída. E come-se com uma porção de arroz. É uma delícia que não precisa nem de mistura.
Eu chegava em casa e o cheiro do almoço já me invadia as narinas. Minha mãe sempre foi boa cozinheira. Pegava o maior prato que havia e de um lado colocava o arroz e do outro o feijão com cudiguim. Cortava um pedaço dele e comia aos poucos, com o arroz bem quente, saindo fumaça. Nunca gostei de misturá-los porque gostava de sentir-lhes o sabor separadamente. Depois tirava um bom cochilo porque é uma comida pesada e, como a feijoada, demora um pouco a digerir no estômago. Bons tempos em que se podia comer de tudo e dormir a hora que quisesse.
Dailton Martins é leitor da FOLHA





