DEDO DE PROSA
Nos idos de 1960, viagens de férias não eram rotina em nossa família. Mas uma vez ao ano íamos visitar nosso tio João e sua família no seu sítio em Terra Boa. Tínhamos grande apreço por eles. Quando meu pai dizia que em duas semanas iríamos visitá-los, era grande nossa alegria. Os dias que antecediam a viagem eram de ansiedade e parecia que demoravam a passar.
Na véspera da viagem, meu pai mandava lavar nosso Jeep, engraxava-o e nossa mãe fazia as malas. Na madrugada, a mãe nos acordava e todos se arrumavam para a tão esperada viagem. A primeira parada era em Rolândia, ainda escuro, para tomarmos o café em um bar. De volta à estrada, quando o sol começava a despontar, mamãe dizia: "Olhem, o dia está nascendo!" Era tudo muito bonito. Ao chegarmos em Maringá, acabava o asfalto e começava a estrada de terra. A viajem no Jeep não era nada confortável, ainda mais em seis pessoas, mas tudo era alegria e diversão.
Como era difícil a comunicação na época, nossas visitas eram de surpresa. Ao chegar ao carreador do sítio do tio João nós ficávamos com um frio na barriga de ansiedade. Lembro-me que meu pai tinha uma buzina antiga e que quando ele resolvia trocar de carro, a primeira coisa que ele fazia era tirar a sua buzina de estimação e colocar no novo veículo. A buzina tinha o som de "uga, uga" dos velhos calhambeques. Então, quando começávamos a descer o carreador, ele começava a buzinar e não demorava nada para meu tio e os primos correrem para o meio da estradinha, gritando de alegria. O velho tio jogava o chapéu de palha para cima, uns primos deitavam no chão, outros subiam no para-choque do Jeep, dependuravam onde podiam. Era uma alegria incontida de todos nós.
Todos desciam e aí ninguém mais trabalhava enquanto nós ficávamos lá. As enxadas? Ah, permaneciam esparramada no meio do cafezal.
A tia e a mãe cuidavam da cozinha e de colocar as conversas em dia e nós partíamos com os primos para o riacho de águas barrentas, para o pomar, a caçar com estilingue e os dias passavam sem perceber.
Chegava a hora de partir. Que tristeza! Os olhos marejados de lágrimas desde o velho tio até meu querido pai. Subíamos o carreador e todos ficavam abanando com um adeus doído, mas começando a espera para o próximo ano. Quanta simplicidade, mas muitas alegrias naqueles dias. Que saudades!
Sidney Girotto é leitor da FOLHA





