DEDO DE PROSA
Antigamente era muito comum para quem morava no sítio ter algumas lamparinas em casa. Hoje, com a ampliação de redes elétricas, há mais facilidade para se obter energia. E parece que todos os medos se dissiparam com a luz do progresso. Ou, pelo menos, quase todos. A escuridão da mata e a superstição das pessoas tinham um campo vasto no imaginário popular, tais como lobisomem, mula-sem-cabeça, saci-pererê, assombração e sabe-se lá mais o que dava medo e incentivava as crianças a dormir mais cedo ou mesmo a obedecer os pais. Tinha sempre um que dizia: "Olha a Cuca, que ela gosta de criança desobediente!" O que equivalia ao "Homem do saco" na cidade.
As lamparinas "alumiavam" as casas naquelas noites em tempos que as lâmpadas elétricas demoravam a chegar à zona rural e acompanhavam a vida do homem do campo dentro de casa desde o início da noite até a hora de dormir.
Ainda para afastar a escuridão havia a arte da criançada, que enchia garrafas de vidro vazios com vaga-lumes. Era uma lanterna de pouca duração, tendo em vista que os pequenos insetos não aguentavam muito tempo dentro do recipiente fechado. A meninada se divertia às custas do pobre inseto fosforescente. Era uma interatividade lúdica, que hoje destoa da boa ecologia, mas naquela época a consciência era outra.
Todas as luzes da zona rural jamais se igualavam às lamparinas, parentas das lâmpadas de azeite de outros lugares do mundo e da antiguidade que nos séculos adiante usaram óleo de baleia até serem substituídas pelas de querosene - que foram lâmpadas de uma época em que o fogão à lenha, o ferro de passar com carvão, o pé de ferro para consertar sapato e a enceradeira de escovão eram utensílios domésticos indispensáveis.
Depois que as lamparinas se foram, a cidade e as suas luzes tomaram conta desse mundão. Já não existem mais os medos das assombrações, mas outros medos tomaram seu lugar. Medos que às vezes não se vão ao raiar do dia. Já não são mais os furtos de mandioca, abóboras e frutas no espigão da propriedade, nem as estiagens prolongadas ou as terríveis geadas, mas a falta de segurança nos carreadores dos sítios, chácaras e fazendas de gente que labuta e sustenta a vida da cidade.
Mas os olhos do homem do campo, mesmo assim, sempre se levantam para o horizonte todos os dias e sabem que, apesar de tudo, a sua fé, esperança e trabalho continuarão a encher os celeiros deste país.
Dailton Martins é leitor da FOLHA





