DEDO DE PROSA
O quintal de casa, no sítio, era cheio de plantação. Não aquela que garantia o sustento da família, mas que matava nossa fome todo dia. Tinha chuchu, inhame (tá aí uma coisa que não gostava), salsinha e cebolinha, alface, tomatinho cereja, abobrinha, abóbora paulista (com a qual minha mãe fazia o doce que mais gosto até hoje), laranja-lima e jabuticaba (quando era época). Tudo era colhido fresquinho e ia dali direto para o fogão a lenha e de lá para os nossos pratos.
E lá na hortinha do sítio também tinha um pé de bucha. Como, imagino, nem todo mundo sabe o que é bucha e muito menos o que é e para que serve tal vegetal, me encarrego de esclarecer as coisas e a razão dele fazer parte desta prosa.
A bucha é uma planta trepadeira parente da abóbora e do pepino. De fato, se dependesse de atrativos estéticos ela seria quase um mato lá na horta do sítio. Sua florzinha cor amarelo lavado perdia feio, por exemplo, para a exuberante obra prima do maracujá. Para completar, a pobrezinha ainda tinha uma folha áspera e o caule era bem tosquinho.
Como o fruto, a própria bucha, não é comestível, ele não fazia parte da farra da molecada pela horta atrás de alguma coisa gostosa para forrar o estômago. Para piorar, quando amadurecia não ostentava o vermelho vivo dos tomatinhos, o verdinho escuro da salsinha e cebolinha, o cheiro meio azedo meio doce da laranja. No verão, ele passava do verde para o amarelo e do amarelo para uma aparência seca.
Mas, olha como a natureza é sábia. Quando estava para cair do pé, a bucha ganhava fama. Nesta época, minha mãe e a gente íamos para horta colher as buchas secas. Era uma delícia. A gente apanhava as que já estavam no ponto e colocava sobre o telhado da cozinha por alguns dias para secar ao sol. Que saudades... Dia sim, dia também, a criançada lá de casa tinha que chacoalhar uma a uma. As sementinhas pretas soltas dentro do fruto batiam na casca seca e acabavam com a tristeza na roça. Pronto, daí era só descascar a bucha e deixá-la secar dependurada no varal de arame.
Mas para que servia a bucha? Certamente não era só o chocalho da molecada? Não. Para quem morava no sítio e vivia da lida com a terra, a bucha vegetal era "tiro e queda" para tirar o cascão do pé, a sujeira debaixo das unhas, a poeira encalacrada nas dobrinhas do pescoço. Era um esfoliante dos melhores. Outra serventia muito importante era na pia da cozinha. Além de não riscar a louça, deixava tudo brilhando rapidinho. Ou seja: a bucha tinha funções que nenhuma outra planta, nem mais bonita nem mais feia, conseguiam ter.
Hoje, em tempos de preocupação com o meio ambiente, a bucha vegetal é valorizada por ambientalistas como uma forma de preservar nossos recursos naturais, por ser biodegradável. Por isso, quando você cruzar com um pé de bucha por aí, não faça pouco dele, até porque a natureza, como disse, é muito mais sábia do que a gente.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





