Por pouco dona Artele não ficou maluca quando se mudou de casa e cidade com os três filhos. Do campo para a metrópole, de uma casa enorme com quintal para um apartamento. A mudança mexeu com os ânimos da molecada e também com o da dona de casa. Acostumados a soltar pipas, correr atrás da cachorrada e até testar os estilingues nos passarinhos da pequena Getulina, os meninos ficaram sim, limitados. Entediados, os três irmãos caçavam atividade no sétimo andar do prédio e, para tristeza da mãe, faziam muita arte.
A estreia coube ao caçula, que deixou a mãe com o coração na mão. Curioso por saber o que havia debaixo do carpete, o menino esforçou-se e conseguiu tirar uma parte do tapete verde com rodapé de naylon trançado que cobria o ambiente inteiro. E no dia da faxina, a mãe descobriu o feito.
Ninguém assumiu a culpa do carpete e nem de outras traquinagens. O irmão mais velho, que deveria dar exemplo, marcou o tempo em que a família morou no condomínio em São Paulo. Nua tarde em que a mãe foi à reunião de escola, abriu uma lata de azeite com a furadeira do pai, que estava à mão.
Ainda teve o dia em que os pequenos foram pegos passeando de elevador, mas pelo lado de fora. Os meninos que riscavam a terra quente do chão com tocos de madeiras e criavam minhocas imaginárias, pareciam terroristas mirins e riam dias seguidos com as bombas que soltavam na escada, que deixavam os moradores aflitos.
Mas o feitiço virou contra o feiticeiro no dia em que o irmão do meio acordou antes de todo mundo. Pegou a batedeira de bolo da mãe e resolveu colocar na cabeça. O resultado, depois de gritos e do socorro da mãe, foi um cabelo cheio de falhas. Na hora de responder porque estava com a cabeça raspada, o travesso preferia dizer que havia pego piolho. Só o barbeiro para consertar todo o estrago, mas não o susto.
Quando a família comprou uma chácara pertinho de São Paulo, foi o remédio para amansar os meninos. Colhiam frutas no pé, tomavam banho na caixa d´água improvisada, alimentavam os porcos e ajudavam o caseiro a lavar roupa na mina. Num fim de semana, gastavam energia e davam descanso para a mãe. O contato com a natureza fez falta para a criançada que cresceu correndo atrás das galinhas, atormentando os cachorros da rua e debulhando milho junto aos mais velhos por diversão. Agora a mãe não ouvia mais o interfone tocar com reclamação de que os filhos estavam tocando campainha e saindo correndo. Na volta da chácara em Mogi, a expressão dos três no banco de trás era de cansaço e prazer.

Walkiria Vieira é repórter do NossoDia

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