DEDO DE PROSA
É interessante como os costumes com o tempo vão se tornando diferentes. Quando eu ia com meus pais visitar parentes no sítio, sempre que a gente entrava nas estradas rurais havia um costume muito agradável de quando um veículo passava pelo outro - podia ser uma carroça, um trator, ou outra condução -, e mesmo as pessoas não se conhecendo, acenavam, cumprimentando-se. Era um costume bonito que se perdeu no tempo.
Hoje, ao ver o trânsito caótico da cidade, percebemos que as pessoas não ligam a seta para virar à esquerda ou à direita, andam colados uns nos outros, correm demais por conta dos atrasos aos compromissos assumidos no seu dia a dia e xingam-se o tempo todo porque estão com os nervos à flor da pele por causa de tudo e por causa de nada. Fico me perguntando onde a humanidade vai com tanta pressa assim.
O caminho de antigamente era mais lento, os carros corriam menos e nada era em tempo real. Hoje, nem o ditado se salva mais, pois você acha a agulha num palheiro com o GPS. Ninguém se perde mais. Mas a velocidade das coisas nos faz refletir o quanto somos velozes em nossa educação e bons costumes. Longe de ser moralista - não porque não o seja mas por não me dar o direito a tanto -, acredito que estamos nos afastando de coisas muito saudáveis, que vão muito além da boa alimentação. Gravitamos em torno de futilidades que nem sempre levam à felicidade, esta a que procuramos indo a um sítio, uma chácara de lazer, um local de diversão, rememorando a simplicidade do campo e a comida típica que muitas vezes não aguentamos comer, de uma época sem conservantes, quando a carne de porco era guardada em lata com gordura suína pois não se tinha geladeira.
Procuramos, com o uso das coisas da modernidade, nos aproximar da simplicidade que não passa da lembrança de um passado recente, mas sem volta.
Aquela maneira de se cumprimentar nas estradas antigamente não era apenas um costume, mas um modo de vida. Reflexo de uma civilização que se perdeu, não no tempo apenas, mas na falta de uma reflexão sobre que caminho tomar na encruzilhada em que a humanidade chegou. Queríamos tanto o progresso para podermos desfrutar de mais tempo livre para o nosso lazer, mas temos agora é que trabalhar quase todas as horas do dia para manter o nosso padrão de vida, no qual se paga por tudo. Já não somos mais o que somos, mas somos o que temos e como podemos pagar pelo que adquirimos.
E lá vamos nós pela estrada que tomamos, cheia de moledos e barrancos, dentro de uma carroça - com capota e ar condicionado - sem freio, numa descida.
Dailton Martins é leitor da FOLHA





