Toda família tem histórias célebres que são recordadas exaustivamente à mesa de cada ceia de Natal ou no dia do aniversário da avó. Essas histórias também são recontadas quando alguém vê uma notícia na televisão e lembra de algum episódio passado. Ou quando alguma criança da família, sem saber de nada, faz algo parecido com o que o tio mais velho fez há muitos anos. Coisas do tipo, o dia em que o irmão cortou o cabelo sozinho com a tesoura escolar ou quando a sobrinha de cinco anos brigou com todo mundo e fugiu com uma sacolinha de mercado com a escova de dentes para a casa da vizinha. Ou aquele episódio inesquecível dos dois pestinhas que puseram uma barata de plástico na escada para assustar as velhinhas que moravam no prédio onde o tio era síndico.
Meus amigos mais letrados diriam que isso é História Oral e que essas tradições são até estudadas na universidade. Eu, que sou mais curiosa do que erudita e levo a sério minha condição de repórter do interior, prefiro chamar de "causos".
Minha família é cheia destes episódios. Mãe e seus muitos irmãos nasceram com um talento inegável para a eloquência, o que sempre rendeu horas intermináveis de lembranças e reminiscências sobre fatos ocorridos anos atrás. E eu, que modéstia à parte nasci com um certo talento para ser ouvinte, na infância me deliciava ouvindo as conversas que se estendiam até de madrugada. Disfarçada atrás de um livro ou fingindo brincar de boneca no cantinho da sala, ficava ligada nas histórias e nas sonoras gargalhadas dos adultos.
Foi assim que me tornei íntima de tia Carmem, a simpática irmã do meu avô que só conheci bem velhinha. Notável por presentear os sobrinhos com dinheiro e maçãs – um artigo de luxo para a época -, a senhora também sofria de TOC, o que sempre rendia lembranças engraçadas sobre as manias da senhorinha. Foi também por escutar prosa dos adultos que experimentei emoção inenarrável ao conhecer pessoalmente tia Corina, uma feminista que se formou farmacêutica na primeira metade do século passado e sempre deixava um dinheirinho no "rabo do touro", referindo-se à escultura em forma do bovino que ficava sobre a mesa da sala. Emoção maior foi ver e tocar o famoso touro no apartamento que ficava no bairro da Liberdade, em São Paulo.
Toda família tem histórias célebres que são recordadas exaustivamente à mesa de cada ceia de Natal ou no dia do aniversário da avó. O engraçado é que, nem sempre, elas fazem sentido para quem não é da família. E aí, enquanto uma parte da mesa chega a chorar de rir com um "causo" que todo mundo já conhecia, outros ficam sem entender que o motivo da euforia é um só: aquele povo é uma família.

Carolina Avansini é repórter na FOLHA

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