Quem pensa que Bratislava é apenas a capital da Eslováquia, país da Europa, se engana. E se engana também quem pensa que Bratislava é apenas um Patrimônio de Cambé. Bratislava é a memória de um tempo em que a colonização do Norte do Paraná se fez com muito suor e trabalho dos pioneiros. Gente vinda de longe que, inspirada pelas propagandas da Cia de Terras Norte do Paraná, se instalou na terra roxa, das mais férteis no mundo.
Eram italianos, portugueses, alemães, poloneses, japoneses, entre tantos outros que escreveram com seu anonimato grandioso o que lemos na realidade de hoje em toda esta região. Vieram também por parte de outros estados do Brasil muitos paulistas, mineiros, baianos além de outros desbravadores destas terras cheias de onças e perobas. E foram construindo mais do que um pedaço do Paraná, foram contruindo confiança, relações comerciais, amizade, cooperação, solidariedade e com seu trabalho de sol a sol fizeram o que somos.
Bratislava não é, realmente, um pedaço da antiga Nova Dantzig, mas um pedaço de uma formidável história recente. Uma história de gente que quando fazia pamonha era uma festa de confraternização no sítio, pois era sinal de que a colheita do milho tinha sido boa. Se o vizinho mandava alguma coisa numa vasilha para o outro, o que recebera jamais mandava de volta a vasilha vazia. E ninguém era pobre o bastante que não tivesse o que repartir.
Mas o tempo ali foi passando e as pessoas se mudando para a cidade. Os filhos foram procurando novas oportunidades que o campo não oferecia: estudos e trabalho diferente da roça. A vizinhança se transformando. A cidade começava a contornar a área rural em forma de loteamentos e dar-lhe forma diferente do que antes era o pequeno patrimônio. As carroças dando lugar aos automóveis e o asfalto foi chegando. Aí já era hora de se tornar lembrança.
Já faz algum tempo que não passo por ali. Lembro apenas da pequena igreja, do campo de bocha e do campinho de futebol, além de umas poucas construções de madeira que ainda povoam as minhas reminiscências, de quando passava a tarde de domingo no sítio de meus tios com meus pais e irmãos. Tardes de goiabeiras e café do sítio com pão caseiro, quando se andava sem medo pelas lavouras de café antes da grande geada de 1975 que mudou todo o perfil econômico da região.
Hoje Bratislava foi loteado em chácaras de lazer, vejo nos classificados da Folha de Londrina, e a minha lembrança mais alegre daquela época é que quando perguntavam à minha mãe onde ela fizera o primário, dizia com orgulho: "No Bratislava". E achavam que ela era da Eslováquia...

Dailton Martins é leitor da FOLHA

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