DEDO DE PROSA
Quando o único filho de Geraldo, caseiro do nosso sítio, nasceu, uma polêmica se instalou na família. A mulher tinha ouvido na cidade o nome Washington e ficado encantada, mas o caboclo não se conformava com tanto estrangeirismo ele mal conseguia pronunciar aquele conjunto de letras. A sogra tinha feito promessa para Nossa Senhora Aparecida, padroeira da cidade, para garantir à filha um bom parto. Fosse qual fosse o primeiro nome do rebento, ela insistia que o neto tinha que ter Aparecido em sua identificação.
Participamos de longe da agonia do caseiro, até que meu pai sugeriu a ele optar por um "nome simples" para não se arrepender mais tarde. Parece que o conselho funcionou: no dia em que o garoto resolveu vir ao mundo, o novo pai foi ao cartório sem fazer alarde e voltou de lá com uma certidão que surpreendeu a todos. Geraldo tinha resolvido que seu filho se chamaria... Geraldo. Afinal, era o herdeiro tão esperado, aquele que deveria dar continuidade ao seu legado de trabalho duro. Naquela criança estavam depositadas muitas esperanças.
Desde pequeno, porém, Geraldinho parecia viver em outro mundo. Tinha sempre lápis e papel à mão, para registrar suas inspirações. O pai preocupava-se, não entendia de onde saía tanta sensibilidade, e nem como aquele talento com as letras poderia lhe ser útil. Sem o sonhado ajudante, o caseiro acumulava serviço por fazer no sítio. Vivia preocupado com o jeito "diferente" do filho, mas seu imenso amor só lhe permitia admirar tudo o que brotava daquele espírito criativo. Em vez de preconceito, o homem rude do campo deixou aflorar afeto.
Aos 18, o artista da família foi para a capital. Entrou facilmente em uma universidade pública, se destacou, escreveu livro e teve até música gravada por banda famosa. Nunca esqueceu dos seus, e com muita discrição, presenteou os pais com o sonhado pedaço de chão. De vez em quando Geraldinho os visita. Continua não sabendo selar um cavalo, é uma negação com a enxada e mal sabe dirigir um trator. Mas extrai poesia do cheiro do mato e das tardes iluminadas. Não deu aos pais a nora e os netos que eles sonhavam, porque sua orientação é outra. Mas é pura atenção e respeito com quem lhes deu a vida. Certa vez, abraçado à cria, Geraldo (o pai) disse, feliz da vida: "Este não é o filho que um dia pedi a Deus, mas é o melhor filho que Ele poderia ter me dado".
Silvana Leão é repórter da FOLHA





