DEDO DE PROSA
Nunca vi crianças tão animadas para viajar e enfrentar estrada por mais de oito horas - e em nenhum momento reclamar de nada. Na parada, os irmãos considerados afoitos e cheios de pedidos disso e daquilo outro, pareciam nas nuvens. O que os pais ofereciam estava mais do que bom. O motivo foi porque do dia para a noite, a viagem a trabalho do pai tinha um significado diferente e muito especial. Mãe e filhos não ficariam sozinhos em casa durante o fim de semana e finalmente Clara, de 13 anos, e Patrick, com 14, poderiam ver o mar de perto, pela primeira vez e o fim de semana se transformou em férias em família.
No fim da tarde, a menina que havia passado a semana inteira pulando cedo da cama e fazendo provas parecia revigorada só por saber que iria para a praia. Um misto de curiosidade e realização ocupava o pensamento dela, que entre um trecho e outro deixava escapar: "Como é a areia da praia?" Disse que podia imaginar seus pés na areia e que finalmente conheceria as conchinhas, o som do mar e queria saber de onde vem toda espuma quando as ondas quebram. Atenta às placas da rodovia, Clara percebia que estava perto da praia, do mar e de uma paisagem conhecida apenas pelos livros escolares, novelas e filmes.
Segundo os pais, desde que se casaram, a mãe professora e o pai viajante, nunca conseguiram tirar férias juntos e proporcionar aos filhos um passeio ao litoral. O menino era mais contido, mas não menos ansioso. Mexia as mãos o tempo todo e enxugava o suor na bermuda, sem virar o pescoço da janela, e parecia não sentir saudades das bolinhas de gude que batia na terra, a principal brincadeira no pequeno sítio onde morava, em Cianorte. Quando o pai anunciou: "Olha lá o mar", já passava de uma hora da manhã. O céu de outubro e as luzes da cidade confundiam as crianças que não sabiam ao certo o que era água, asfalto ou areia. As pupilas de Clara pareciam uma câmera noturna programada para deixar o diafragma na abertura máxima, para então captar quanto mais luz pudesse.
Quando o carro parou em frente o hotel, a menina lançou: "Mãe, posso ver de perto? Mãe posso pisar na areia?" Juntos, os dois irmãos correram para a praia feito filhotes de tartaruga saídos do ovo. Os chinelos foram ficando no caminho, prometeram que só iam molhar os pés e diante da cena seus pais ficaram só olhando e admirando a alegria dos filhos diante da natureza. A mãe emocionada disse: "É, acho que precisamos sair mais vezes de Cianorte".
Walkiria Vieira é repórter do NossoDia





