DEDO DE PROSA
Ainda era madrugada quando saía de casa o comboio familiar de caipiras rumo ao cafezal, que ficava a umas duas léguas de distância. Pela estrada de chão, a turma ia aumentando pelo caminho. Em julho, a criançada ia junto, pois era tempo de férias na escola. Meu avô sempre lembrava aos mais pequenos para se agasalharem bem, porque quando o negro do céu começava a ser tingido de azul - "quando a noite clareia e apaga as estrelas" -, era a hora em que o dia ficava mais frio e a geada exuberante cobria todo o descampado com uma delicada camada de gelo.
Na cabeça dos adultos, levar as crianças para a roça era a garantia de transmitir desde logo tudo aquilo que eles próprios tinham aprendido quando tinham a mesma idade. Havia nisto uma mistura de obrigação e tradição: obrigação em entender rápido que o homem é o trabalho que ele realiza; e tradição pelo sentimento de nobreza do trato com a terra.
Nas nossas cabecinhas avoadas, aquilo era uma festa. Não era fácil a luta com os pés de cafés carregados de frutos vermelhos. Os galhos riscavam a pele, a raspagem dos caules machucava as mãos, as pernas doíam por ficarem em pé por horas a fio, o pano na cabeça para proteger as orelhas e o chapéu de palha esquentava o cocoruto.
Mas uma coisa fazia a gente marchar morro acima a catar os cocos maduros. Como o trabalho na roça principiava junto com o sol da manhã, o expediente também acabava mais cedo. Por volta das quatro da tarde, os adultos arrumavam as tralhas e desciam de volta para suas casas, cansados e felizes por mais uma batalha vencida.
Quanto à gente, a brincadeira estava só começando. Em vez de descer o morro, a gente corria no meio das árvores médias do cafezal até o topo. Como recompensa pelo dia na lida, os pais deixavam a molecada levar suas pipas embaixo do braço. E no fim do dia era a hora de levantar voo. A gente aproveitava o ventinho do inverno lá nas alturas para libertar nossos passarinhos artesanais de papel e varetas de bambu. E lá ficávamos até que o sol ia se apagando e acendendo as primeiras estrelas em mais uma noite de inverno.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA DE LONDRINA





