Desde criança eu ouvia falar das "reuniões" de família no sítio para preparar os alimentos e como aquilo podia se tornar uma festa. Quando se matava um porco, por exemplo, todo mundo era convocado para ajudar e cada um desempenhava uma função, de acordo com a sua idade. Alguns cortes eram destinados a ser conservados em banha, outros viravam linguiça e assim por diante.
Portanto, foi com muita expectativa que aguardei o dia em que faríamos a "festa do milho". Os vizinhos dos meus avós eram proprietários de um sítio e um dia combinaram de juntar as famílias para cozinhar juntas. Logo cedo os homens foram até o campo e trouxeram vários sacos com espigas fresquinhas. Com cuidado eles iam cortando o talo do milho, de modo a facilitar a tirada da palha.
As crianças ficaram incumbidas da limpeza, retirando todos os "cabelinhos" das espigas. De vez em quando um grito era ouvido, por conta de uma lagarta. Já adolescente e acostumada a ajudar minha mãe na cozinha, eu ia separando as melhores palhas para a pamonha. "Tem que ser grande e bem molinha, para a pamonha não vazar e não quebrar quando for dobrar", dizia ela.
Conforme as espigas eram limpas, as mulheres iam selecionando cada uma, segundo sua textura. As mais novas eram separadas para serem cozidas. As intermediárias virariam pamonha, polenta ou bolinho frito de milho e as mais maduras serviam para curau.
Uma a uma as espigas foram sendo raladas, porque "para a pamonha ficar boa, o milho tem que ser ralado, nada de usar liquidificador", diziam, com razão. Depois toda aquela massa foi temperada, embrulhada e amarrada cuidadosamente. Uma parte foi separada para ser frita e virou deliciosos bolinhos.
Enquanto isso, em outra parte da enorme cozinha outras espigas foram transformadas em curau e bolo. Temperando toda essas iguarias, muita conversa, lembranças da época em que todos moravam no sítio, em que não havia luz elétrica e era preciso puxar água no poço. Para nós, pequenos, uma verdadeira aula de história, de como os vizinhos eram solidários e repartiam entre si os frutos de cada propriedade, de modo que nada se perdesse e todos pudessem se alimentar bem.

Érika Gonçalves é jornalista na FOLHA

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