DEDO DE PROSA
Louça na pia, roupa suja e cama eram sinal de casa desarrumada. Ou seja, para dona Mariana, tinha que estar tudo no devido lugar, limpo e organizado, a começar pela calçada, sempre indicando que o asseio começava pela porta. Herança de família, dava para entender tanto zelo, já que foi criada para ser uma exímia dona de casa. E era feliz assim. Autêntica na teoria e na prática, não era de dar ouvidos a quem a criticasse, assim como não metia o bedelho na vida da mulherada que saia cedo de casa para trabalhar fora e só voltava quando escurecia.
Quem conhecia por dentro a casa de dona Mariana, na Vila Formosa, em São Paulo, contava que mais parecia uma casa de bonecas. Pela organização e graciosidade, sem excessos. "Um brinco", multiplicavam as admiradoras e que se esforçavam para chegar aos pés da famosa senhorinha de cabelos brancos acinzentados. "Pinto quando dá", falava e dava para entender que a vaidade não era, dos pecados capitais, o que mais a acometia.
Os sete filhos, todos bem criados, ganharam educação, exemplo e os estudos ajudaram na formação. Nívea, a única das meninas, era dócil, simples, sempre levava as amigas para brincar em casa. E quando a diversão terminava, sabia anunciar, ainda que bem menina, que era hora de guardar tudo no lugar. "Quem sabe tirar, sabe guardar", ensinava aos menores, com uma didática tão natural quanto espelhada na mãe.
Numa noite daquelas bem geladas, São Paulo parecia um verdadeiro dilúvio. A rua virou corredeira e quem olhava a água lavando tudo pela janela, via também o olhar assustado dos vizinhos das casas assobradadas. Em frente ao bar do seo Dito, vivia uma família que teve a casa avariada pela chuva. As calhas estavam entupidas, a água começou a escorrer pelas paredes, tomou conta de tudo e quando o temporal deu trégua, dona Mariana virou o abrigo.
Toalhas e banho quente, todo mundo ganhou. A mesa posta parecia pronta para aquecer os meninos da vizinha, que não conheciam repolho, mas adoraram e acharam bem crocante na sopa de feijão. O pãozinho francês todo fatiado era para molhar no caldo quente que, além de saboroso, tinha um sabor acolhedor. A vizinha de fama zelosa reforçou suas qualidades pela generosidade e carinho em hora que ninguém escolhe para incomodar. Dava para perceber a alegria da senhorinha a cada concha bem servida para a família em apuros.
Walkiria Vieira é jornalista no NossoDia





